"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de maio de 2017

última ceia


Serve-se hoje a última ceia deste blog.

Gostaria de explicar a todos a razão que levou ao nascimento deste espaço. Foi puro trabalho de pesquisa. Nunca tinha tido nenhum blog, embora soubesse que existiam. Na escrita de Vida em L., o personagem principal tem um blog. Como tal eu precisava de saber como era este mundo. Depois, o mesmo foi sendo utilizado para largar ideias e situações do desenrolar da história, recolhendo nos vossos comentários opiniões e deixas relevantes. Por fim, começou lentamente a ser um espaço pessoal...

Mas, muito mais do que escrevi, o mais importante foram as pessoas que aqui descobri. E provavelmente descobri no que têm de melhor e mais íntimo - a escrita. Não quero esquecer ninguém, aqui não há favores, todos os que gosto de ler estão na lista de leitura aqui ao lado, os que não gosto, não estão.

Quem ninguém me leve a mal, mas dei por mim a não dispensar a Isabel Pires e a Laura Avelar Ferreira, pessoas que admiro muito pelo que escrevem. Não me levem a mal, se vos disser que a Sra. D. Miss Smile é uma fantástica escritora. Não me levem a mal, se disser que a Carla, hoje ocupada na Letra B., escreve como ninguém porque vem do coração. E por falar em escrita que me agarra a ana, a Olvido, a GM ou a Maria. E last but not least, o acutilante Impontual, e o fantástico Manel Mau Tempo. Um grande abraço, sempre, para aquele que primeiro me viu, o C.N.Gil.

Certamente que já viram centenas de blogs começarem e acabarem. Este acaba aqui hoje. O conta corrente, o CC, morre aqui hoje.

Mas eu não, eu que escrevo, já não vivo sem vos ler. Assim sendo nasce para este mundo o Miguel Bondurant, que não é nenhuma personagem, sou eu mesmo, só meio louco, com residência fixa em: 
 

Para celebrar o conta corrente deixo-vos este banquete, com enorme pena de não vos ter servido pessoalmente. Sabem bem, quando tenho uns dias de descanso é isto que me faz descansar.

Obrigado, sempre.


percebes ao natural

lagostim com bisque

navalheiras gratinadas

arroz de lingueirão

gelado de morango





segunda-feira, 8 de maio de 2017

livros

...para os dias que se avizinham.

sempre gostei de pessoas fora do formato. na maioria dos casos são pessoas que conseguem criar, acrescentar algo, e com esse algo dar prazer aos outros. por norma, usaram drogas e álcool para fugirem da realidade que será sempre pequena para eles, para poderem criar para si próprias e depois dar aos outros.

admiro esta rebeldia, é isso.

Apetites, Anthony Bourdain

 Histórias de loucura normal,
Charles Bukowski








domingo, 7 de maio de 2017

amor


Jack Vettriano

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os 
afogados.
Depois, na rua, ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros, um ar
diferente inundava a cidade.
Sentei-me nos degraus do cais, em silêncio.
Lembrei-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de
lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça até
desaparecer.
Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem
estares ali,
continuavas ao meu lado.
E ainda hoje me acompanha essa doente sensação
que me deixaste como amada recordação.


Amor, Nuno Júdice



lembrou-me, e bem, a Isabel Pires os textos de Nuno Júdice, excelente na arte de explicar e contar o que eu não sei. Procurei o que tinha guardado dele, e o porquê de o ter guardado. Nada acrescento, foi e é o que ele escreveu... e agora... por agora, é relembrar o bom do que ficou.



sábado, 6 de maio de 2017

polvo

arroz de polvo
Abr.2017


Finalmente chegou a noite. Sabes noite, não és só sossego, és a minha melhor amiga. Como amiga que és não serves só para o bom, serves para me pôr a realidade a cru. Aí não falhas, e com pressa, logo me lembras o meu único grande amor, e pior, a sua ausência. E aqui fico, mais negro que o céu que te veste.

Se a noite me suga para a sua escuridão, agarro-me a tudo para não se engolido. Já aprendi a fugir, já aprendi que posso não cair, e acabar a chorar, enrolado num qualquer sofá. Não que recorra a álcool ou drogas. Não. Faço o que mais gosto, cozinhar. De preferência algo que me seja difícil. Ou então, devoro livros, ou escrevo só pelo acto. Mas nesta noite não, foi mesmo a cozinha que me salvou do buraco negro. A minha besta negra culinária é o polvo. Esse bicho forte, resistente e muito inteligente. Mesmo morto, não se deixa comer, é preciso arte, vontade e muita tenacidade para tratarmos do bicho. Que gozo me deu, nem rijo, nem mole e elasticamente impossível de mastigar. Perfeito, numa cozedura ao segundo devidamente cronometrada. Matei, muitas vezes, polvos já mortos na minha panela. Desta vez não. O segredo tinha vindo durante a tarde pelos ensinamentos sábios de um famoso chef, a quem pelo telefone obriguei a repetir três vezes os truques e demais condimentos. Et voilá, luz na noite escura. E que bem que dormi.

Não estranhem, acho perfeitamente normal fazer e comer arroz de polvo depois da meia noite e meia. Não esquecer um bom tinto, neste caso do Douro, e depois, enquanto se faz a necessária digestão, uns poemas de Pessoa vestindo a pele do conta corrente.

miguel bondurant