"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 13 de março de 2017

elas


Robert Coburn
Carole Lombard, 1942


Maria.
Viajou cedo do lado de lá da Serra, Aires e Candeeiros, para perto do mar. Veio de Alcanede. Já velhinha não escondia o deslumbramento de quem vê o mar. Ainda me lembro, eu que sempre vi o mar. Mãe de três, duas meninas e um rapaz, casou e cavava chão. Criou o rapaz, boa parte do tempo foi mãe e pai. As filhas foram criadas por tias na cidade. Era a tremoçeira da terra. Tinha fama a sua cozedura e qualidade. Com o marido fora , ver Puerto Rico (para já), foi sempre uma enorme lutadora. Já mais idosa, lembro de tocar 6 netos, que no verão não dispensavam 3 semanas lá na aldeia. Aí aprendi a andar de bicicleta, mota, e claro de burro. Tínhamos que ajudar, e a carregar e a cavar, a regar ou a amanhar, passávamos os dias, felizes todos os 6, no meio de corridas e jogos de bola. Recordo o seu suspiro de felicidade, com os 6 netos de roda, a debulharem feijão, que à noite seria um enorme repasto, nas misturadas. Manteve enorme dignidade, ao receber de braços abertos os filhos que o seu marido fizera fora. Relembro numa fase terminal o terço, às 18h30m, num rádio velho, onde pedia por todos e nada para ela. Afinal nunca teve nada.

Célia.
Baixinha, sempre arranjada, cabeleireiro semanal, baton e óculos de sol. Às 17h, o chá, com as amigas, sempre, todos os dias. Senhora do seu nariz, que gostava de passear e viver. Adorava Lisboa, e levou-me muitas vezes  para Lisboa, para casa da sua irmã, e minha tia, a Gertrudes. Foi mulher de negócios, tinha um grande armazém de lixiviados, ceras e demais químicos, que revendia às mercearias de todo o oeste. Também faziam perfumes e águas de colónia. Conduzia camiões TIR, e pegava em caixas. Já reformada, representou um qualquer marca de  produtos de limpeza industrial, e geria tudo na mesa da sala, com um telefone e um caderno sebenta A5. Não falhava era no arranjo, e no chá das cinco. Foi exemplo empreendedor, antes do tempo e num mundo de homens. Recordo muito a sua beleza.


Foram as minhas avós, que eu devia ter aproveitado mais.

Ainda na ressaca do dia da mulher, e deste texto da Laura, se-por-isto-se-por-aquilo. 


miguel bondurant
contrabandista

11 comentários:

  1. Bom conhecer assim as tuas avós!
    conta corrente, fiquei com muita curiosidade na tua avó Célia.

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    1. era a chamada força da natureza. sempre mexida e dinâmica. muito bonita. morreu de complicações várias, mas no final o Alzheimer ia muito avançado. ia vê-la todos os sábados nos meses finais ao lar. não me reconhecia, tratava-me por senhor simpático, como só se lembrava do passado a espaços, falava de Lisboa, roupas e dos netos que se tinham formado, e estavam bem empregados :) sabes ainda nova aí com pouco mais de 60 anos foi das primeiras pessoas a ser operada por causa de um cancro (ciência oculta à época), com desvio do intestino. aprendeu a regular e recusou sempre usar saco, pois achava que isso era coisa de doente :)

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  2. que ternura, conta corrente...

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  3. que bela homenagem... ainda tenho uma avó, mas ela deserdou-me!
    :)

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    1. :) às vezes ser deserdado é uma benção :)

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  4. Entendo e gosto das honenagens sentidas às nossas mulheres. Nentendo é gosto das homenagens sentidas aos nossos homens. Não entendo a homenagem à mulher, como não entenderia a ao homem (se a houvesse) não é escolha, é acaso. O que se faz com o que se é não é acaso, é carácter. Coisa que pelas tuas descrições não falta à nenhuma dessas tuas duas mulheres, e que bonita e terna homenagem. Gostei tanto. Fiquei (tão) curiosa de saber dos homens dessas mulheres...

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    1. Valhamedeus que eu ando com as palavras mais esquizofrénicas do que o normal, é o que dá escrever no telefone e não conseguir reler o que está escrito para trás por manias do bicho... corrigido e com algum sentido era assim:
      Entendo e gosto das homenagens sentidas às nossas mulheres. Entendo e gosto das homenagens sentidas aos nossos homens. Não entendo a homenagem à mulher, como não a entenderia ao homem (se a houvesse); ser, um ou outro, não é escolha, é acaso. O que se faz com o que se é não é acaso, é carácter. Coisa que pelas tuas descrições não falta a nenhuma dessas tuas duas mulheres, e que bonita e terna homenagem. Gostei tanto. Fiquei (tão) curiosa de saber dos homens dessas mulheres...

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    2. Olá​ :)

      A bem dizer a ideia não era homenagear. Mas obrigado. Falaram tanto do dia da mulher (...) que me lembrei destas em concreto.

      Sobre o marido da Maria, podes ficar com uma ideia aqui:
      http://contascorrentesdodia.blogspot.pt/2017/02/puerto-rico-para-ja.html?m=1

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    3. Pois, sabes, o dia da mulher diz-me muito pouco, mas há mulheres que me dizem muito, como pessoas, como seres humanos, como forças da natureza algumas, e sim, acho que estes textos são bonitas homenagens a essas duas mulheres, tuas raízes, tuas avós.
      Esse texto li-o já, desconfiei que seria a "Maria" a avó correspondente... :)

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  5. que bonito e que belos retratos, CC!

    e obrigada fico feliz por teres gostado!

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