"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de março de 2017

cotão




Eu já desconfiava. A D. Manuela passa-me as camisas como ninguém. Arruma e desarruma na mesma proporção. Se se visse o que ela me fez quando limpou o pó ao livros... ainda estão como deixou, capas para cima, outras para baixo, lombadas para à esquerda, à direita ou de pernas para o ar. Mas é a D. Manuela, e eu preciso dela, muito. Eu já desconfiava. Ela aspira, mas não debaixo da cama. Enchi-me de coragem, e armei-me de aspirador em punho. Baixei-me e espreitei debaixo da cama. Susto!

É lá que estão sentimentos meus. 
É lá que estão sonhos teus. 
É lá que está o nós.
O que sobrou...
Coisas que deixaste, boas e más. 
Eu só lá tenho más. 
Tu deixaste tudo, bom e mau.

Com pressa guardei tudo AQUI
Talvez te faça uma cópia da chave
Afinal, vais querer recordar

A D. Manuela não vai sair com pés de lã desta. Mas faz-me falta. Faz. Nem o dia acontece sem a D. Manuela. Gosto muito dela.



cotão | s. m.

co·tão
(francês coton)

substantivo masculino

1. Pêlo que soltam os panos.

2. Lanugem de certos frutos.

3. Filamentos que se juntam debaixo das camas, dos móveis, no fundo dos bolsos, entre as costuras da roupa, etc.

tabacaria


Arthur Grace


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa
Álvaro de Campos
um dos maiores

não encontro,
 não há igual, 
quase noventa anos depois, 
este homem põe em papel a minha vida...






segunda-feira, 20 de março de 2017

beatitudinem

dia da felicidade, ok...
o que te faz feliz? ok...

É pouco, mas vamos tentar.
Ao menos não é preciso comprar nada ...






É assim sem ordem especial

Foz do Arelho - mar

Uma cozinha - sem o white clean imposto

Livros, livros e livros

Todas as mulheres



quinta-feira, 16 de março de 2017

16.03


Dezasseis de Março, do ano da graça do senhor, de mil novecentos e... também deveria ser da graça da senhora minha mãe.

Gentes importantes que nasceram neste banalíssimo dia, além deste vosso amigo, Bernardo Bertolucci, Manuel Cargaleiro, Jerry Lewis, Camilo Castelo Branco ou Francisco Pizarro.

Facto irrelevante, é o 75° dia do ano, 76° nos anos bissextos.

Curiosidade: na mitologia greco-romana é o primeiro dia do Bacanal, festival de Dionísio (Baco para os romanos), deus do vinho, dos grãos, alegria e fertilidade. O que faz todo o sentido pensando em mim.

E agora algo completamente estranho. Não percebo, não sei, nem quero, perceber de signos e horóscopos​, alinhamento de planetas e derivados. Sei que sou peixes, e mais não sei. Quis o destino que seguisse um link num comentário de Miss Smile num texto do Manel Mau Tempo. Era sobre signos... Mas levei o esforço até aos peixes, por azar o último. Aqui vos presenteio com o que os astros dizem de mim.

Et voilá

São seres especiais
Se alegram com nossa alegria
Choram com nossa tristeza
Se entregam aos amigos
De maneira impressionante
Gentis e apaixonantes
Sonham o mundo
Num instante
Mas é um indeciso
Viajante
Romântico incurável
Estar do seu lado
É algo incomparável.

Isto fica por aqui, porque nunca faço festa disso, não por motivos religiosos, apenas porque a minha timidez... Enfim, é apenas o 75° dia do ano.

Só apresentei isso dos astros, porque me ri, e é sem dúvida um possível retrato (duvidoso), pois é só qualidades, faltam os defeitos. Mas hoje não é dia disso.

Mais informações astrológicas aqui.



quarta-feira, 15 de março de 2017

sabes


Sabes, ainda vejo.

Aquele indicador esticado, a enrolar e a desenrolar, o cabelo negro, enquanto lês O. Wilde no sofá, a mostrares as pernas, dobradas, com a minha camisa vestida.

Sabes, ainda vejo.

Aquele olhar, verde, penetrante, cortante, as pupilas dilatadas, as pestanas ainda maiores, que só acabava no quarto, com um suspiro.

Sabes, ainda vejo.

O morder do lábio, em gesto nervoso, sedutor, de quem me quer falar, confidenciar, um pensamento ou um desejo.

Sabes, ainda vejo.

O sorriso, maroto, terno, em busca da minha indignação porque não sabes comer esparguete.

Sabes, ainda vejo.

A pasta dos dentes aberta, porque tu nunca, mas mesmo nunca, a fechavas.

Sabes, ainda vejo.

E sinto. As tuas mãos no meu rosto, quando eu definhava, e tu, fria e assertiva, me gritavas "viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.", do teu querido O. Wilde.

Sabes, ainda vejo.

Os dias que eu nada dizia, ou quando por tudo, ou por nada, tu vias-me, tu sabias adivinhar o meu pensar, e fazias gala nisso.

Sabes, quando o teu cabelo passou a negro brilhante, o verde dos olhos ficou maior. Sabes, só de olhar-te, a dormir, como dormem os deuses, eu tinha tudo.

Sabes, é claro de sabes. Afinal dei-te tudo.

Sabes como sei? Porque não esqueço, que o que escrevi, disseste-me tu ao ouvido sobre mim, no dia que partiste.



É curioso. Sabemos que estamos perante uma das mulheres da nossa vida, como amiga, ou amante, quando lhe reconhecemos as pequenas coisas do dia-a-dia, e gostamos dos seus pequenos gestos e trejeitos.

Sabemos da importância de alguém, quando esse alguém, nos olha, e sabe, sem nada dizermos, o que se passa cá dentro, o que nos corre no íntimo, sem ser água ou sangue.

conta corrente
in como olho e as vejo







segunda-feira, 13 de março de 2017

elas


Robert Coburn
Carole Lombard, 1942


Maria.
Viajou cedo do lado de lá da Serra, Aires e Candeeiros, para perto do mar. Veio de Alcanede. Já velhinha não escondia o deslumbramento de quem vê o mar. Ainda me lembro, eu que sempre vi o mar. Mãe de três, duas meninas e um rapaz, casou e cavava chão. Criou o rapaz, boa parte do tempo foi mãe e pai. As filhas foram criadas por tias na cidade. Era a tremoçeira da terra. Tinha fama a sua cozedura e qualidade. Com o marido fora , ver Puerto Rico (para já), foi sempre uma enorme lutadora. Já mais idosa, lembro de tocar 6 netos, que no verão não dispensavam 3 semanas lá na aldeia. Aí aprendi a andar de bicicleta, mota, e claro de burro. Tínhamos que ajudar, e a carregar e a cavar, a regar ou a amanhar, passávamos os dias, felizes todos os 6, no meio de corridas e jogos de bola. Recordo o seu suspiro de felicidade, com os 6 netos de roda, a debulharem feijão, que à noite seria um enorme repasto, nas misturadas. Manteve enorme dignidade, ao receber de braços abertos os filhos que o seu marido fizera fora. Relembro numa fase terminal o terço, às 18h30m, num rádio velho, onde pedia por todos e nada para ela. Afinal nunca teve nada.

Célia.
Baixinha, sempre arranjada, cabeleireiro semanal, baton e óculos de sol. Às 17h, o chá, com as amigas, sempre, todos os dias. Senhora do seu nariz, que gostava de passear e viver. Adorava Lisboa, e levou-me muitas vezes  para Lisboa, para casa da sua irmã, e minha tia, a Gertrudes. Foi mulher de negócios, tinha um grande armazém de lixiviados, ceras e demais químicos, que revendia às mercearias de todo o oeste. Também faziam perfumes e águas de colónia. Conduzia camiões TIR, e pegava em caixas. Já reformada, representou um qualquer marca de  produtos de limpeza industrial, e geria tudo na mesa da sala, com um telefone e um caderno sebenta A5. Não falhava era no arranjo, e no chá das cinco. Foi exemplo empreendedor, antes do tempo e num mundo de homens. Recordo muito a sua beleza.


Foram as minhas avós, que eu devia ter aproveitado mais.

Ainda na ressaca do dia da mulher, e deste texto da Laura, se-por-isto-se-por-aquilo. 


miguel bondurant
contrabandista

domingo, 12 de março de 2017

a cabeça a fugir (2)


Ruth Bernhard
Two forms



Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
com os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.


Eugénio de Andrade
In O Sal da Língua

sábado, 11 de março de 2017

a cabeça a fugir (1)



Herb Ritts
Female torso with veil



Assim que te despes 
as próprias cortinas 
ficam boquiabertas 
sobre a luz do dia


Os teus olhos pedem 
mas a boca exige 
que te inunde as pernas 
toda a luz do dia


Até o teu sexo 
que negro cintila 
mais e mais desperta para a luz do dia


E a noite percebe 
ao ver-te despida 
o grande mistério 
que há na luz do dia


David Mourão-Ferreira
In O corpo iluminado

quarta-feira, 8 de março de 2017

teia



A aranha do meu destino 

Faz teias de eu não pensar. 
Não soube o que era em menino, 
Sou adulto sem o achar. 
É que a teia, de espalhada 
Apanhou-me o querer ir... 
Sou uma vida baloiçada 
Na consciência de existir. 
A aranha da minha sorte 
Faz teia de muro a muro... 
Sou  presa do meu suporte.

Fernando Pessoa
A aranha do meu destino



Ninguém gosta de falhar. Eu não gosto. Pior é falhar com as pessoas. Eu falhei, e pedi desculpa. Uma boa história, é verdade. Faço tudo por uma boa história. Mas ao misturar ficção e realidade, esqueci-me de que do outro lado há uma pessoa. Essa pessoa tem sentimentos, vive, e não pode ser manipulada em uma qualquer ficção. Não se faz, eu sei, é mau. Desculpas aceites, perdoado ou não, não sei. Nada mais posso fazer.

A tristeza recaí sobretudo porque falhei comigo próprio. Hoje voltei a lembrar este triste episódio.

Não há borracha que apague o viver, o bom e o mau.

miguel bondurant

A Vida em L. tem muito da vida real das pessoas, e tem muita realidade adaptada e ficcionada. Se calhar é uma boa razão para ficar na gaveta.

Mas voltando a misturar o real e a ficção, há uma alegria imensa em tudo isto. Afinal está perto o reencontro real com a Luísa da ficção. E há tanto para falar e contar. Com jeito digo-lhe quem é a Luísa.

O saudoso C.N. Gil escreveu uma vez que fazer um livro é 1% de inspiração e 99% de trabalho. Aqui o trabalho foi longe demais... e deixou-me cansado.

E depois há o blog que ficou, e há histórias a escrever, e uma ideia nova, mas deixo isso para outro dia.

Agora vou escrever, e aproveitar a tristeza do miguel e a minha alegria.

"sou uma vida baloiçada
na consciência de existir"

conta corrente


Estão bem o C.N Gil? E a Alaska?

É engraçado este hábito que ganhamos ao ler as pessoas nos blogs, e depois sentimos saudades.
Bom mesmo é ler os olhos de alguém :)

sexta-feira, 3 de março de 2017

abraço

Jack Vettriano

abraço

tudo passou e sinto falta, do abraço
aquele o último, o ficou por dar
esse mesmo.

o abraço da mulher, o meu aconchego,
a minha calma, conforto, combustível,
o meu lençol de flanela, o abraço

a tua força, o teu calor no meu pescoço,
o meu sangue girava vergado à pressão,
o teu também, o teu peito contra o meu,
o jeitinho de levantar o pé, para te subir ao céu,
tu a pedires carinho, e eu perdido de prazer simples, tu nos meus braços.
baixinho, ao ouvido, querias um beijo, e eu queria tudo,
e nada tenho.

já não vivo sem abraços,
definho e vou mingando,
e nos pensamentos do teu abraço,
aquele o último, o ficou por dar,
renasço, sempre.

conta corrente
in, como olho e as vejo

quinta-feira, 2 de março de 2017

united colours.


Estou cansado. Um cansaço que começa a puxar a indiferença.

Quem me conhece sabe que não faço discriminação com base em sexo, cor, região, país ou zona do globo, nem na orientação sexual de cada um, e religião. Uns nascem brancos, pretos, amarelos, outros homens e outros mulheres, outros uma mistura, uns são das américas, outros africanos, uns asiáticos, uns ateus, cristãos ou muçulmanos, hindus, enfim.

Agora o que me cansa, são as quotas, a distinção por contraponto à discriminação, porque parece bem.

Vi um reportagem sobre os Óscares. Não foram os filmes candidatos aos prémios que me prenderam. O que me irritou foi a clareza com que se afirmava que o melhor colocado para melhor actor secundário era um jovem de origem indiana. Porque era bom? Porque a sua capacidade de representar foi notável? Não, porque era de origem indiana, e a academia provavelmente queria premiar alguém dessa zona e raça. Segue um mulher para melhor realizador, porque era excelente na realização. Não, porque era mulher,e elas não ganham muitas vezes o melhor realizador. Melhor filme um musical? Sim, porque já nenhum ganha faz tempo, se bem que se pesou se deveria ser a causa gay ou o argumento sobre racismo aos pretos. E resumem os filmes a isto... Ao lobby que representam. Pouco, muito pouco. Vai daí, deve ser por isso que simpatizo com o cinema cru, violento, e de final inesperado do Tarantino.

O próximo Nobel deve ser alguém da música, porque é bom, não porque temos que agradar, ou então um asiático, não porque seja bom, mas porque já faz tempo que não ganha ninguém daí...

Ora para mim, Óscares e Nobel, Grammys e prémios similares devem ser atribuídos sem discriminação de sexo, cor de pele, causa ou religião, mas sim porque quem ganha fez e faz um belíssimo trabalho.

E estou cansado, e escusado será dizer que não sei - nem quero - saber nada dos filmes dos Óscares. Nem de Grammys nem do próximo Nobel das letras.

miguel bondurant,
contrabandista