"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Puerto Rico (para já)

Puerto Rico

Sentia-se preso, JF sempre sonhou com o mundo, queria mais. Cavava chão, dele e de outros, e construía gaiolas. Ele e Maria eram pobres, e mais difícil ficou com o nascimento do terceiro filho. Eram pobres de bens e de espírito, bem ao gosto do chamado Estado Novo. Perante a pobreza, e se calhar a fome muitas vezes, as duas raparigas foram cada uma para perto, por forma a serem criadas por tias. Ficou apenas o rapaz, que nas pausas da escola sempre era mais um par de braços para trabalhar. Mas JF, no seu íntimo, sabia que o fado poderia ser outro.

Quis a crença, a fé, ou a sorte que num domingo, a seguir ao almoço, na taberna local, a vida mudasse. Estava lá o filho de um senhor para quem JF cavava, e trazia um convite. Queria levá-lo para Lisboa, e para o mundo. Ia pertencer à marinha mercante. "Tens bom corpo e és trabalhador, e vais poder sustentar a família".

No primeiro ano, fez a carreira para os Açores. O capitão do barco ensinou-o a ler e a escrever, algo que ele muito anseava. Depois durante cerca de 8 anos viajou, sobretudo para o norte da Europa, e por toda a América. Era a plena liberdade, era o matar de fome de conhecimento, e ver o mundo, todo.

Por Puerto Rico passou, e a Puerto Rico voltou. Apaixonou-se pela calma, pelo clima, e por Rosa. Só a força de um grande amor o poderia demover da sua demanda de ver o mundo. Abandonou o barco, o trabalho, e clandestinamente ficou em San Juan, junto de Rosa. Foi dado como desaparecido, e a sua fuga comunicada às autoridades do Estado Novo. Ali ficou, meio escondido, no Caribe, com Rosa, servindo à mesa aos jantares, e construindo gaiolas de dia. Ao fim de uns meses casou com Rosa, e desta união nasceram dois filhos.

Acabou por ser denunciado, bem ao estilo do Estado Novo. Foi deportado, e preso na sua chegada a Lisboa, sob a acusação de bigamia. Cumpriu pena, e depois regressou à sua aldeia, à Maria, e ao cavar o chão dele é dos outros. Já não construía gaiolas.

O que se passou a seguir ainda está por escrever.

...

Esta história é baseada na verídica história do meu avô materno, não sendo estes os nomes originais. As esposas (uma minha avó) existiram, bem como existem todos os seus cinco filhos, uma delas minha mãe. Os dois filhos homens já faleceram. E houve um reencontro de toda esta gente, segunda e terceira geração, já após a morte do meu avô. A família de Puerto Rico, depois da deportação foi para os EUA.
Desde Dezembro que esta história não me saí da cabeça. Estou a recolher informação, sobretudo de Puerto Rico e da época, junto da minha meia-tia que vive em Nova Iorque, através do facebook. Parece-me interessante a história, cheia de possibilidades, e será o meu tributo ao meu avô e avó, e aos restantes.
Está a ser divertido para já.

Vaya com Dios, Puerto Rico

4 comentários:

  1. força CC, tem todos os ingredientes para correr bem :)

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    1. Com este cenário de fundo há aqui ingredientes muito bons mesmo.
      Há também uma excitação, gozo pessoal, nesta busca de dados, e de possibilidades de escrita, que já não escondo.
      :)

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  2. História interessante, gostei.
    Sem dúvida uma bonita e espectacular homenagem aos seus avós. Continue a contar conta corrente. :)

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    1. Já iniciei a escrita, e está a ser muito satisfatória a experiência. É uma base muito interessante, eu também achei.
      Obrigado :)

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