"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

gatilho


Flor Garduno

Reparei em ti no dia que vi, pela primeira vez, o teu ombro destapado.
Nesse momento, senti, senti mesmo, algo que não defino o que é.

Seria talvez um arrepio frio mas quente, uma onda eléctrica mas calma, um desejo rápido e fugaz mas que durou uma eternidade, uma seta em cheio, que perfurou de cima para baixo e não doeu. 

Uma contradição, sem dúvida.

Será possível um bocado de pele nua causar tamanho terramoto, sem nada abanar?
Fixei os olhos, eram escuros, bonitos, e sem brilho. O rosto sereno, alheado, composto pelo cabelo negro em desalinho.

Como eu gosto.

Ontem mesmo. Outra mulher.

O oposto em tudo, mas o momento foi igual, um flash eterno de contradições. Um bocado de pele nua, o pescoço. Os lábios perfeitos, quase desenhados, olhos verdes, vivos, luminosos. O cabelo, loiro, arranjado para impressionar.

Como eu gosto.

Olho para as mulheres, mas quando as vejo assim, fico numa alegria pueril.
Depois, bom...
Depois a vida continua.

Um brinde.
Um brinde ao deus, ou deuses, que criaram a mulher.
Não foi obra de um só.

Será que é a pele o gatilho deste vulcão?

E será que importa...

conta corrente
in como olho e as vejo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Puerto Rico (para já)

Puerto Rico

Sentia-se preso, JF sempre sonhou com o mundo, queria mais. Cavava chão, dele e de outros, e construía gaiolas. Ele e Maria eram pobres, e mais difícil ficou com o nascimento do terceiro filho. Eram pobres de bens e de espírito, bem ao gosto do chamado Estado Novo. Perante a pobreza, e se calhar a fome muitas vezes, as duas raparigas foram cada uma para perto, por forma a serem criadas por tias. Ficou apenas o rapaz, que nas pausas da escola sempre era mais um par de braços para trabalhar. Mas JF, no seu íntimo, sabia que o fado poderia ser outro.

Quis a crença, a fé, ou a sorte que num domingo, a seguir ao almoço, na taberna local, a vida mudasse. Estava lá o filho de um senhor para quem JF cavava, e trazia um convite. Queria levá-lo para Lisboa, e para o mundo. Ia pertencer à marinha mercante. "Tens bom corpo e és trabalhador, e vais poder sustentar a família".

No primeiro ano, fez a carreira para os Açores. O capitão do barco ensinou-o a ler e a escrever, algo que ele muito anseava. Depois durante cerca de 8 anos viajou, sobretudo para o norte da Europa, e por toda a América. Era a plena liberdade, era o matar de fome de conhecimento, e ver o mundo, todo.

Por Puerto Rico passou, e a Puerto Rico voltou. Apaixonou-se pela calma, pelo clima, e por Rosa. Só a força de um grande amor o poderia demover da sua demanda de ver o mundo. Abandonou o barco, o trabalho, e clandestinamente ficou em San Juan, junto de Rosa. Foi dado como desaparecido, e a sua fuga comunicada às autoridades do Estado Novo. Ali ficou, meio escondido, no Caribe, com Rosa, servindo à mesa aos jantares, e construindo gaiolas de dia. Ao fim de uns meses casou com Rosa, e desta união nasceram dois filhos.

Acabou por ser denunciado, bem ao estilo do Estado Novo. Foi deportado, e preso na sua chegada a Lisboa, sob a acusação de bigamia. Cumpriu pena, e depois regressou à sua aldeia, à Maria, e ao cavar o chão dele é dos outros. Já não construía gaiolas.

O que se passou a seguir ainda está por escrever.

...

Esta história é baseada na verídica história do meu avô materno, não sendo estes os nomes originais. As esposas (uma minha avó) existiram, bem como existem todos os seus cinco filhos, uma delas minha mãe. Os dois filhos homens já faleceram. E houve um reencontro de toda esta gente, segunda e terceira geração, já após a morte do meu avô. A família de Puerto Rico, depois da deportação foi para os EUA.
Desde Dezembro que esta história não me saí da cabeça. Estou a recolher informação, sobretudo de Puerto Rico e da época, junto da minha meia-tia que vive em Nova Iorque, através do facebook. Parece-me interessante a história, cheia de possibilidades, e será o meu tributo ao meu avô e avó, e aos restantes.
Está a ser divertido para já.

Vaya com Dios, Puerto Rico

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

15.02


Dancer in Emerald
Jack Vettriano*

Hoje 15.02.2017, é dia de São Cláudio Colombière, é um dos 365 dias do ano dos amantes, namorados e similares.

Já te disse bem cedo que te amo.
Estou tentado a ver flores para ti.
O vermelho paixão deve estar em conta hoje, mas gosto de laranjas, azuis, brancos e pérolas. Não percebo nada de flores.
De cores ainda menos.
Qual é a tua cor?
Sim, sou mau com afectos.

De ontem, interessante, resta a composição da Laura. Passei-te o link. E perguntei-te "o que é que as mulheres querem do amor"*, se é tudo aquilo ou se eu, nas minhas falhas, sou suficiente.

* por aqui se mede que devia prestar mais atenção à pintura, descobri, só agora, este artista, obrigado pela partilha de a vez da Maria, de Maria Eu

* gostei, sinceramente dispôs bem, do texto e do teatro. Mais informações e visualizações em Laura Avelar Ferreira

ideias alinhadas por
conta corrente e 
miguel bondurant
na mesma proporção,
horas diferentes enfim...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

the son of man

Rene Magritte,
por Lothar Wolleh

Acho que nunca trouxe a terreiro pintura. Pese embora não lhe dedique o tempo que deveria, tenho gostos e preferências. Avalio arte sobretudo pelas sensações que me transmite, e as cores, sempre as cores.

Aqui deixo Rene Magritte, sobretudo pela obra the son of man , ou le fils de l'homme, uma das minha obras preferidas. Trata-se de um auto-retrato. Porquê da minha preferência? Implicaria explicar muito de mim, mas são muitas as interpretações desta obra. Magritte é um artista surrealista, influenciado por Freud, pinta imagens surreais com elementos realistas, demonstrando sempre metáforas inteligentes.

Sobre esta obra de eleição, disse o autor o seguinte: Pelo menos ela esconde o rosto parcialmente bem, assim que você tem a face aparente, a maçã, escondendo o visível mas oculto, o rosto da pessoa. É algo que acontece constantemente. Tudo que nós vemos esconde outra coisa, nós sempre queremos ver o que está escondido pelo o que nós vemos. Há um interesse naquilo que está escondido e no que o visível não nos mostra. Esse interesse pode tomar a forma de um sentimento relativamente intenso, um tipo de conflito, pode-se dizer, entre o visível que está escondido e o visível que está presente.

Curiosidade, durante a guerra, com a ocupação alemã, ganhou a vida a pintar imitações de Van Gogh, Picasso ou Cezanne.


the son of man

the lovers

golconda

georgette magritte

sábado, 11 de fevereiro de 2017

pudor


pudor
Óleo de Luis Serrano

Sempre senti algum pudor no que a manifestações, gestos, de amor diz respeito junto de terceiros.

Para mim demonstrar em público, à mulher amada, o meu amor, passa por dar a mão, um abraço, um discreto beijo, ou um elogio.

Que não se confunda pudor com puritanismo. Admito, pode haver aqui um pouco de timidez. Admito, sou parco em demonstrações de amor... Muito mesmo.

...Epá agarrada ao miúdo como se não houvesse amanhã, até a malta em volta já olhava de lado...Foi triste...

Seguiram-se os comentários jocosos, muito próprios do universo masculino descontraído em torno de um copo de vinho. Mudei o tema para o futebol, estava envergonhado, afinal conheço a mulher em causa. E se os homens acham graça, muitas vezes, a mulheres infantis e de pouco pudor, quando algum diz que era exagerado, é porque efectivamente o era.

miguel bondurant
contrabandista


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vida em L


Vida em L

Retrata a vida de Ricardo Soverosa, num período particularmente conturbado, embora curto. A chegada da Troika, e as implicações sociais da mesma, coincidem com as mudanças da vida amorosa de Ricardo. De um relacionamento estável com Liliana Pontes, adquirido para vida, Ricardo apaixonar-se-á por Laura Pinto, pese embora fosse um amor impossível de concretizar. Redescobre o jogo bom da paixão. Perdendo Liliana e não podendo ficar com Laura, Ricardo é resgatado para a vida amorosa por Leonor Penha, amiga do passado, mulher linda e celebridade. Amor ao qual Ricardo nunca conseguirá corresponder, porque o seu coração, afinal, sempre esteve com outra mulher, pese embora o seu esforço de o negar. Luísa, grande amor da adolescência, está sempre presente em Ricardo ao longo desta aventura.
Esta história tem também pequenas histórias paralelas, que sobretudo caracterizam o impacto social da Troika, realçando o seu lado mais negro. E no fim, qual será o destino amoroso de Ricardo? Um homem que passou de certezas de amor a muitas dúvidas, marcado pelas mulheres de L, Liliana, Laura, Leonor e Luísa do passado. Um homem que tentando manter  o seu equilíbrio emocional, se confessa num blog anónimo. O que fará Ricardo, quando toda a sua vida fica ao contrário?

Sendo certo que alguns de vós já o experimentaram, senti um prazer enorme em criar, inventar e comandar as vidas destas personagens. Alegria sem paralelo, dar-lhes fala, prazer e angústias. Riscar e apagar, escrever e reescrever, não o consigo explicar, e nem quero. Para mim, criar esta história, estas gentes e diálogos foi um acto bom de prazer, totalmente egoísta. E se para mim nasceu, comigo morreria.

Caí no erro de deixar uma pessoa amiga levá-lo a um editor. Digo erro porque que o foi, não queria a aprovação de ninguém, não preciso de saber se é interessante para outros. Basta-me o prazer de o ter escrito. Em Dezembro fui contactado. Adiei por duas vezes. Lá fui ouvir. Acenaram com direitos, um incontável número de obrigações, e claro, a promessa de uma vida nova que não quero, agora. Com receio de estarem a cobrar um favor a terceiros, sozinho, enviei a história a outra editora, que se interessa pelo mesmo género. Duas semanas passadas, igual resposta. Não nego, deu-me gozo pessoal, sim. Fez bem ao ego e foi divertido, sim. Ponto.

Não me julguem mal. Eu sei que muitos gostariam de ter estas hipóteses, e eu estou a desprezá-las, mas disso não sou culpado, cada um é cada um. Não quero transformar um prazer em obrigação, estragando o prazer, e pior arriscando algo que implica o bem estar de terceiros.

As portas ficaram abertas, o futuro ainda ninguém o viu.



[excerto retirado do livro Inquietude, de Isabel Pires]

(...)

Há palavras que só vêm no tempo
das cerejas, cheias de promessas
a anunciar o calor agarrado
à esperança de um verão eterno.
Há ainda as palavras da inquietação,
há sempre inquietação,
inquietação: e aí estão elas, cruas
e cortantes como convém.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Chegamos de mãos vazias. deep

George Hoyningen-Huene
1928 


Porque a voracidade dos dias, das rotinas, do trabalho, são grandes responsáveis por nos esquecermos do amor e dos que amamos.

Porque estas palavras da deep não me saem positivamente da cabeça, aqui as exorcizo positivamente também. Obrigado deep, desculpa o abuso.

É um retrato muito belo, de uma realidade por vezes triste.

Trazemos os ouvidos
cansados de muitas histórias inúteis, 
o olhar vago, o coração gasto
de tantas esperas vãs...
Do amor não sobra mais
do que a espuma do café
que borda o interior da chávena,
a esperança, essa, parece querer partir
na primeira passa do cigarro
que fumamos apressados...
Como se alguém nos esperasse
num qualquer aconchego,
como se houvesse ainda
caminhos que valha a pena
palmilhar,
como se pudesse
ainda um qualquer rio
conduzir-nos à imensidão
do mar, em que possamos,
para sempre,
perder-nos...

deep, Janeiro de 2013

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

L.


Michael Dweck 

L.

Enrosca-se. Aninha-se.
Dobra-se em feto. Forma a sua concha.
Refugia-se. Esconde-se.
É o cansaço.
É um corpo exausto por uma mente insaciável.
Quer dormir.
Não dorme.
A catadupa de pensamentos vorazes não dá descanso à mente, e esta não dá descanso ao corpo.
Quer dormir.
Como não tem controlo, chega a dor.
Aquela dor no peito que não é física.
Tem nome esta dor, é tristeza.
É o presente em dor, por um passado que nunca foi presente, e um futuro que não sendo como o passado será triste como o presente.
E dói.
Muito.
A tal ponto que falta o ar.
Tudo isto porque no passado eras meu, eras tudo.
Não havia tempo sem ti.
Disseste-o em grito.
Audível.
Finalmente as lágrimas libertadoras, que libertam ar, que libertam tudo.
A dor passou.
Finalmente dormiste.

Nunca dia seguinte, quando me contaste, queria dar-te um abraço. Afinal conheço bem essa dor. Afinal fui eu que te a criei.
Ainda escrevi que te amo, de outra forma, mas amo. Não te disse.

conta corrente

adaptado de "Vida em L.", romance  de ****** ******, aka conta corrente ou miguel bondurant, ainda por publicar a pedido do autor, o que será outro post explicativo.