"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Romances porque sim.

Orhan Pamuk
O Romancista Ingénuo e o Sentimental
"Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas." Assim começa este livro de Orhan Pamuk, naquilo que é para mim a definição final do prazer de ler ou escrever um romance. Aliás, todo o primeiro parágrafo é delicioso para mim do ponto de vista do que é a alegria de um bom romance. "...revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objectos que pensamos reconhecer." e continua "Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade...", e confunde-se a realidade do romance com a vida real. E conclui "ficamos contrariados e decepcionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver."

Para mim, em qualquer romance, o fundamental são as personagens, o que pensam, dizem, os seus gostos, manias e tiques... sem juízos ou análises psicológicas. No fundo, o conhecer pessoas novas.

Aborda ainda, entre muitas outras questões, a(s) eterna(s) dúvida(s), a questão de o escritor ter ou não vivido o que o romance relata. Será que aquelas personagens existem mesmo? Será que o escritor as conhece? Será que o enredo já foi vivido? Ou é tudo fruto da imaginação de quem escreve? Não sabemos, nem nunca saberemos. Uns escritores optam por dizer que é tudo ficção, outros por dar a entender que viveram o que se relata. Para mim, a dúvida ficará, e ainda bem, mas ninguém escreve totalmente alheado da realidade, de pessoas, situações e diálogos.

Orhan Pamuk, que em 2006 foi Nobel da Literatura, foi convidado pela Universidade de Harvard, em 2009 a proferir seis palestras, inseridas nas chamadas Charles Eliot Norton Lectures. Estas realizam-se desde 1925, e por onde já passaram grandes nomes da Literatura mundial. Destas palestras resultou o livro O Romancista Ingénuo e o Sentimental.

O escritor, que parte da sua grande experiência enquanto leitor de romances e escritor, para falar sobre a dicotomia entre escritores ingénuos e sentimentais. Os primeiros aqueles que se envolvem, e dão tudo, emocionalmente ao que lêem e escrevem. Os sentimentais, são-o mas no sentido reflexivo, sempre "consciente da artificialidade da linguagem".

Para Orhan Pamuk ser romancista é a arte de saber ser um pouco dos dois. Tarefa nada fácil digo eu.

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