"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Resiliência


Passei o dia de ontem a pensar em 2016. Coisas boas, coisas más, e o ano a desfiar-se muito ao estilo noticioso.

Ao fim do dia chega um: "Fui despedida, hoje, cortes na empresa."

Inesperado por tudo. Sou posto à prova. Havia planos em marcha. A vida a dizer perdeste, vou baralhar de novo. Trata-se de testar a minha resiliência, a minha e a de outros. Achei por bem não comentar já o 2016, aguardarei que acabe...

Inesperada é também esta capacidade, com maior calma, de aceitar o revés. É algo que o 2016 me trouxe.

Fui ao Bar, passei pela Varanda. Exercícios obrigatórios de relaxamento e reflexão.

Noite bem alta, choquei de frente com esta música. Recordações de banco de escola. Amores, muitos, em que um beijo escondido, um olhar, faziam viajar e traziam sol.

Estou de volta pro meu aconchego 
Trazendo na mala bastante saudade 
Querendo 
Um sorriso sincero, um abraço, 
Para aliviar meu cansaço 
E toda essa minha vontade 
Que bom, 
Poder tá contigo de novo, 
Roçando o teu corpo e beijando você, 
Prá mim tu és a estrela mais linda 
Seus olhos me prendem, fascinam, 
A paz que eu gosto de ter. 
É duro, ficar sem você 
Vez em quando 
Parece que falta um pedaço de mim 
Me alegro na hora de regressar 
Parece que eu vou mergulhar 
Na felicidade sem fim

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal para todos

Jack Braeur 

Bom ou feliz Natal a todos vós que por aqui passam, seja Santo ou Pagão. Aqui cabem todos.

Tom Petty
Learning to fly

Well I started out down a dirty road
Started out all alone
And the sun went down as I crossed the hill
And the town lit up, the world got still

I'm learning to fly, but I ain't got wings
Coming down is the hardest thing

Well the good ol' days may not return
And the rocks might melt and the sea may burn

Well some say life will beat you down
Break your heart, steal your crown
So I've started out for God knows where
I guess I'll know when I get there

I'm learning to fly, around the clouds
But what goes up must come down

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A não premonição.



Post estranho... pela falta de gente no restaurante, para observar, conversar e trocar banalidades, transcrevo um pensamento rápido à entrada do café.

Repito a foto... Afinal afinal estava a pensar.

Ontem acordei triste. Não. Triste é demasiado. Havia uma angústia inexplicada. Ia e vinha. Assim foi ao longo do dia. Era uma dor fraca, sem origem, qual agulha de sangue.

O dia correu na ignorância, e com o teatro habitual, ao estilo dos pinguins de Madagáscar:  "é só sorrir e acenar, sorrir e acenar".

Liguei aos três Amigos, que tenho. Afinal podia ser uma premonição. Estava tudo bem, todos o disseram. Antes assim. O presságio angustiante, esse estava lá, na mesma.

Não gosto do mundo do premonitório. Não joga com a minha capacidade de análise dos olhos, e do ler nas entrelinhas de quem circula por perto. E se eu sou bom nisso (e sou. não por reconhecimento próprio mas dito por muitos outros, e não gosto de falsa modéstia).

A seguir ao jantar, envio um sms. Desconfiava, e lá veio a resposta esperada por short message service.

Não era grave, isto é, não era presságio. Era a conclusão aproximada, e numa versão melhor, de um desfecho há meses vaticinado, numa correcta análise de uma pessoa.

Não vi chegar, porque faz meses que desliguei, da pessoa. Oxalá a pessoa saiba ler o que lhe aconteceu. Que perceba a sorte e a nova oportunidade. Ou se bem conheço... Não vai perceber.

Conclusão, não gosto destas angústias nem de premonições.

Para isso já basto eu próprio, e a selva de gente que em mim habita.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Escrevi em ti.


Herb Ritts

Foi nessa tarde morna. 
Dormes nua. 
Embalei os teus sonhos. 
Contemplo a tua pele. É seda pura. 
Na ponta do meu dedo a melhor caligrafia.
Escrevi na seda. 
Tudo o que não te sei dizer. 
Usei a tua pele.
Lá gravei a minha alma, com os restos de coração.
É só o que tenho.
Escrevi em ti.
Tudo o que não te sei dizer.
O teu peito beijei.
Senti o teu corpo falar. 
Contei segredos no teu pescoço. 
Entrei em ti, porque mais não sei.
Escrevi em ti.
Tudo o que não te sei dizer.
Oxalá não acordes.
Não escrevi tudo. Falta o amo-te.
Treme o dedo. Tu acordas.
Escrevi em ti.
Não te menti.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Romances porque sim.

Orhan Pamuk
O Romancista Ingénuo e o Sentimental
"Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas." Assim começa este livro de Orhan Pamuk, naquilo que é para mim a definição final do prazer de ler ou escrever um romance. Aliás, todo o primeiro parágrafo é delicioso para mim do ponto de vista do que é a alegria de um bom romance. "...revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objectos que pensamos reconhecer." e continua "Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade...", e confunde-se a realidade do romance com a vida real. E conclui "ficamos contrariados e decepcionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver."

Para mim, em qualquer romance, o fundamental são as personagens, o que pensam, dizem, os seus gostos, manias e tiques... sem juízos ou análises psicológicas. No fundo, o conhecer pessoas novas.

Aborda ainda, entre muitas outras questões, a(s) eterna(s) dúvida(s), a questão de o escritor ter ou não vivido o que o romance relata. Será que aquelas personagens existem mesmo? Será que o escritor as conhece? Será que o enredo já foi vivido? Ou é tudo fruto da imaginação de quem escreve? Não sabemos, nem nunca saberemos. Uns escritores optam por dizer que é tudo ficção, outros por dar a entender que viveram o que se relata. Para mim, a dúvida ficará, e ainda bem, mas ninguém escreve totalmente alheado da realidade, de pessoas, situações e diálogos.

Orhan Pamuk, que em 2006 foi Nobel da Literatura, foi convidado pela Universidade de Harvard, em 2009 a proferir seis palestras, inseridas nas chamadas Charles Eliot Norton Lectures. Estas realizam-se desde 1925, e por onde já passaram grandes nomes da Literatura mundial. Destas palestras resultou o livro O Romancista Ingénuo e o Sentimental.

O escritor, que parte da sua grande experiência enquanto leitor de romances e escritor, para falar sobre a dicotomia entre escritores ingénuos e sentimentais. Os primeiros aqueles que se envolvem, e dão tudo, emocionalmente ao que lêem e escrevem. Os sentimentais, são-o mas no sentido reflexivo, sempre "consciente da artificialidade da linguagem".

Para Orhan Pamuk ser romancista é a arte de saber ser um pouco dos dois. Tarefa nada fácil digo eu.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Mulher TV. Delonga. Carga de ombro




Gosto deste Outono que se demora, e se prolonga em ramos de Verão tardio. Permite-me a delonga na esplanada enquanto espero por ti. Sabe-me bem estes momentos de ver sem ver. Gentes circulam em passo rápido, carregados de sacos de lembranças que serão esquecidas em poucos meses. O empregado que comenta uma saía mais curta, com um cliente habitual. O brilho nos olhos das crianças. O cheiro do assador de castanhas.

Depois chegas tu. Contrarias a minha calma com a tua energia contagiante e frenética. Falas de projectos, gentes, viagens, livros, compras, um mundo louco, rápido e imediato. Eu ouço-te sem ouvir. Estou parado a olhar-te. Como qualquer homem estou fixo na beleza indescritível do teu rosto. Saberão eles da tua beleza sem maquilhagem? Isso já me disseste tu, poucos sabem.

Quando o meu coração acelera, e a fala se prende, tu sabes. Este encontro tinha uma missão. Antecipas, e numa calma que não é tua, dizes: ainda não é agora que ficamos.

Não, não é, preciso de mais tempo. Admito que não me queiras dar mais tempo. Não é justo... eu sei.

Sabes, esperei anos por uma pessoa como tu, não são uns meses que me vão separar de ti. Uma "carga de ombro é legal"

Fico desarmado. Não há como agradecer o que me engrandeces.

Sabes, eu sei, as nossas tardes juntos em breve serão noites, depois dias, e no fim uma vida.

Passou o resto de tempo. Tudo parece fácil dito por ti. Tantas mudanças a sonhar, tantos planos a fazer, tanto para abdicar... outro tanto para ganhar.

Samuel Úria
Carga de ombro


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Afinado e o Haiku



Há uma sonoridade boa quando afinamos as cordas da guitarra da vida. Até porque já tocava mal, estava estridente, e já não era música.

Voltou o prazer de a tocar.

Venha a música. 

Haiku 



Manel mau tempo
É lendo que te vejo
E sempre gosto

E por desafio, do Manel, o Mau Tempo, e curiosidade minha, lá fui desvendar o que era o Haiku.

Em cima, o melhor que consegui. 17 sílabas, 3 versos de 5/7/5 sílabas, e penso que com uma ideia central clara.

Descobri que o que se pretende são duas ideias e um corte entre elas... isso não consegui. Vou treinar.

Só a métrica tradicional ficou bem...

Mas gostei de aprender, Haiku é total novidade.

Foram dias muito bons.
Agora vou ler-vos. Levo aqui uns dias de atraso  deste prazer.

Agradeço-vos o até já.

Onde anda o C.N. Gil ?

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Até já.




É tempo da toca, e hibernar por uns dias. O corpo avisa, deixas de te ouvir a ti próprio. Tudo o mais é um ruido insurdecedor. Cair devagar no sono reparador.

Qual tecelão, unir pontas soltas, num fato de belo corte.

Qual ritual pagão, dançar e sacrificar, para purificar, e no final o mundo volta a girar, sem atrasos.

Vou-me esconder debaixo da cama, fechar os olhos com medo, com medo que o bater do meu coração, o barulho, denuncie onde estou.

Volto já, já já.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Teus olhos que entristecem


Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar,
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir de tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"






Que bem que sabe. É a chuva, enrolada no vento, que bate na janela. Este som de Outono, que acalma. E se preciso. A minha poltrona, já gasta, junto à janela, já comida pelo meu sossego [necessidade]. O pé alto na sua luz suave. E o Pessoa no colo. Vejo estas palavras. É de ti que me lembro. Tu ó força menor da natureza, que nunca me escutaste. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Afinal sugere o quê?


Esses olhos
Impenetrável 
Inatingível 
Divina
Bela

Hoje apago-te!
Não tenho coragem...



[Não sei quem é. 
Não sei de quem é. 
Está guardada e confesso não me lembro, nem desde quando, nem o porquê.
Certamente que me sugeriu algo na altura que a vi.
E tenho-a visto, não a apaguei.
Afinal sugere o quê? 
Todos os dias olho para ela. Este olhar quase que mata!]