"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Invenção do Amor

Este poema, sugestão da Deep, (que também o publicou lá no sítio dela, e bem) vem a propósito de um comentário que ela própria deixou neste post, Que história tão bem contada, que por sua vez, já era um repost da ana, de seu nome "engenho", lá no seu sítio. Por aqui se vê as maravilhas dos blogs, e das gentes que por aqui andam...
Contemplem o poema, digam de vossa justiça. Eu gostei, muito. E gostei da associação que a Deep fez à história que eu vi, e que a ana contou.
A Invenção do Amor
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Daniel Filipe

11 comentários:

  1. Gosto muito.
    Já o tinha publicado lá no meu canto. :)
    http://uma-rapariga-simples.blogspot.pt/2014/09/e-inventaram-o-amor-com-caracter-de.html

    Com direito a link para a declamação feita pelo poeta.

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  2. maravilhoso.
    já conhecia mas há poemas que nunca são demais. :)

    obrigada por o trazeres outra vez, CC

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    1. Eu não conhecia confesso.

      Mas gostei muito.

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  3. É sim um lindo poema, Conta Corrente. :)

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    1. É mesmo Alaska... É mesmo.

      São histórias bonitas.

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  4. Hoje estou em diferendo com o telemóvel... nota-se muito neste post...

    Bom o poema é muito bom.

    Como se chama o último a saber :) ?

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  5. Vale sempre a pena partilhá-lo. Ainda que não seja meu,obrigada!
    Uma boa noite, Conta Corrente. :)

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  6. Caro Contamigo

    Gosto muito da poesia do Daniel Filipe e deste poema em especial. Foi uma excelente escolha, de tal maneira que outros já também o tinham feito. E deixa-me que te diga: cada vez gosto mais deste teu blogue... :-)))

    =================AVISO=======================


    PINTAROLAS E FUNERAL
    Já tinha começado a fazer o anúncio do artigo DENTES PARA O BOLO DE CREME (que faz parte da saga da Alzira) que, porém, não chegou a todos os bogues; por isso o repito agora e aqui.
    Entretanto, uma antecipação: o próximo texto da mesma saga Alzira mete FUNERAL. E por agora nada mais.
    Qjs & abçs – Henrique, o Leãozão


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    1. Obrigado caríssimo
      Tenho de ir espreitar a Alzira.

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