"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ide morrer longe


Aos asnos que me mandam
Ide morrer longe
Cultivai a vossa insaciável alarvidade
Longe, que tenho asco 
Não sabeis o meu nome
Sabeis que sou um número
Ide morrer longe
Insectos de poder mesquinho
De apetite voraz
Que sabeis de mim? Nada
Ide morrer longe
Foi a crise que vos criou
Morrereis sufocados na vossa gordura
E os que chupais estarão a ver
Ide morrer longe
Uns engordaram até explodir nisto
Vocês engordam chafurdando na porcaria
Rastejantes é o que sois 
Ide morrer longe 
Pareceis éguas aperaltadas 
Á custa da vida das mulas, das bestas 
Que vos alimentam
Que um cavalo vos faça mas é !

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Regresso ao Medo



Steve Schapiro

Aviso
Só te quero aqui se me amares.
Se estás por pena, obrigação ou proveito próprio, sai, bate a porta com força e não olhes para trás.
Inquietude, Isabel Pires  


Logo a seguir ao Medo viveram-se eternas primaveras. A descoberta do Ele e do Ela. Aquela leveza de coração que cega os amantes. Em que a finitude de cada um não conta. E não conta mesmo.
Da descoberta passaram ao hábito. Necessidade única em que não se vive só. O tal parar de girar do mundo que só acontece na comunhão perfeita de dois corpos. O hábito bom do dormir de mão dada, do cheiro do outro, dos gestos e olhares que tudo dizem. Tudo, portanto, no seu devido lugar.

Até que a chuva chegou, sem aviso, sem ser convidada.

Diz Ela
- sabes hoje vou partir. Vejo nos teus olhos o teu medo do passado. A outra Ela, que quase te matou, voltou para a tua cabeça, e está espelhada no teu olhar. No meu olhar, mais uma vez vês rejeição...

Ele nada disse. Ela chorou. A porta bateu com estrondo.
Destino traçado, cada um de volta à sua ombreira, cada um com o seu Medo.

Mas, Ele amava Ela, e tinha de acabar para sempre com a outra Ela. Jamais teria paz senão lhe fizer condigno funeral. Terá de ser mais forte que nunca. Conseguirá?

Para firmar esta vontade, ao som da chuva, escreveu:
Estou surdo de tanto silêncio.
Surdo com a violência do estrondo da porta.
Quando saíste... foi com sentimento de revolta.
O meu medo ganhou, essa paixão do passado, voltou. O teu medo ganhou, voltaste a ser rejeitada.
Desculpa...
Eu vou arranjar isto. Vais voltar por aquela porta, com estrondo de desejo.
Prometo.

Será que Ela volta? Conseguem as pessoas apagar o passado?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Será o que será


A mais nova pinta. Quase todos os dias, desde as cores. O mais velho, já aprende a escrever. Tendo por base um simples trabalho, em que lhe eram dadas uma série de frases, ele tinha de construir uma pequena história. Terminou orgulhoso. Depois disse-me, pai posso fazer mais histórias. Podes. Ajudas nas palavras e nas vírgulas? Claro. Os meus olhos brilhavam. Todo o fim-de-semana escreveu. Admito, eu estou felicíssimo.

Pensei o bom que seria. Uma pintora e um escritor. A minha vida teria valido a pena. O meu legado para o mundo.

Não há certezas. Falta viver muito... eles e eu... esperamos.

Só uma certeza. Só uma promessa.

Será o que será.

O que eles quiserem, comigo ao lado. Se for possível.

[horas de vida a pensar sobre a vida e afinal está tudo naquelas duas crianças. basta-me isso]

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Abraço e boa sorte

Alguém que mande, por mim, um forte abraço ao Sr Gil.

Não sabia, fui à procura dele, e deu isto...


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Prazer na minha singularidade.

Há coisas que nos enchem. Fazemos e estamos completos. Sentimento bom, em que o mundo pára, e gira, apenas e só, ao ritmo do que fazemos. Somos parte viva. É o momento em que, na imensidão infinita do universo, encontramos o eu. O prazer que se tem só pode ser explicado na singularidade de cada um.

Dito isto, eu gosto mesmo é de História e letras, muitas palavras, e histórias. Isso sim devia ser uma vida. A cozinha, quase que me atrevo a dizer, essa arte, é o melhor complemento. É um extra, um mimo, uma balança de equilíbrio, numa vida sempre torta...

Dizia a Laura Ferreira que o dia começa depois do trabalho, quando vai para o seu Teatro. E assim chegou até aqui. É verdade a vida assim obriga, a muitos de nós. Mas é bom ver que todos temos o merecido complemento, peso e medida que equilibra.

Deixo-vos um menu de Outono, pois claro. Este foi confeccionado faz já 3 anos. Falta a sobremesa, que ficou desastrosamente feia. Podem sempre sugerir uma. Este ano falhei, não pude ir... trabalho. Mas até tinha boas ideias, guardei-as para o próximo Outono.

Por ordem de mastigar:



Folhado de codorniz em cama de rúcula selvagem com romã


Creme de castanhas com morcela de sangue


Filetes de linguado em Vinho Verde com batata rosti


Lombo de porco em Vinho do Porto, arroz selvagem e legumes grelhados

Bom apetite!

E já agora enquanto mastigam, qual é a vossa singularidade? A vossa balança ou contrapeso?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Guisado de inveja

Tenho um, já, amigo que é um desses novos músicos. Anda aí uma fornada nova.
As letras são muito boas.
Resolveu o artista juntar-se com mais dois, num almoço. Fui convidado, para cozinhar.
Nada exigentes. Todos queriam lulas guisadas! E eu fiz.
Cantaram. Leram. Tocaram músicas uns dos outros. Discutiram textos. Pediram a opinião do "chef".
Nasceu em mim um sentimento de inveja.
Não me julguem já.
Não era inveja deles. De serem artistas, ou de tocarem, ou de escreverem bem a vida dos outros e as deles.
Não.
Inveja de, ao contrário deles, não fazer na vida o que gosto. Só isto.
Sim, a inveja é feia.
Acabei a minha actuação com um crumble de maçã e gelado.
E agradeci.



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Chave



A porta tem uma chave
Lá dentro há vida Fervilha
São estrelas candentes, flocos de neve, rosas com espinhos, de todas as cores, flores amarelas, campainhas dizem, o Sol, nascer e pôr, o cheiro do Jardim, areia nos pés e a força do Mar, o Vento, plátanos e folhas douradas
Guardo os meus eus e eus de outros nas estantes Catalogados
Uma almofada no tecto Às vezes dorme lá Há vista Serra bruta onde nasce o Sol
Há vista Mar consolo onde o Sol se põe
Uma cadeira Uma mesa com o Grande Livro
Uma parede de seda onde se tingem sonhos
Uma parede de algodão com escritos e fotos
Tudo forrado a beijos e carícias com cheiros e coisas que nunca seremos
Medo de perder a chave e o caminho até lá
Vai demorar vou fazer uma cópia para ti

sábado, 19 de novembro de 2016

Está tudo aí. Belo Sábado.

Água Viva, iZem
(feat. Nina Miranda)


Água Viva

(Está tudo aí)
(Tudo)
(Tudo, tudo, tu, tu, tu, tu, tu, tu)

Está tudo aí
Eu vi, está tudo aí
Está tudo aí
Eu vi, eu já percebi

Está tudo aí
Eu vi, está tudo aí
Está tudo aí
Eu vi, eu já revi

A água que deságua por aqui
Dessa água eu já bebi
Vem do amor que eu recebi

Tira a sede de matar
Tira a sede de roubar
E quem tomar, todo o mal vai terminar

Tira a inveja, a cobiça e o rancor
Tudo enfim, e traz amor
Que provoca o desamor

Faz o cego enxergar
Faz o surdo escutar
E quem tomar, todo o mal vai terminar

(Papará-pá-pá-pumpum)

All that is there, I see
All is there
All that is there, I see
All that is there, I see, I had already seen

Oh, oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh, oh, oh
Oh, oh

Have the blind men see again
Have the deaf men hear the rain
And who drinks it ends all the pain

Para-para-pá, pará
Pá-para-pá
Para-para-pá, pará
Parara-pá

Para-para-pá, pará
Pá-para-pá
Para-para-pá, pará
Papara-pá

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sem sossego


Bill Brandt

Recebes a mensagem. Lês e pensas: "estou tão longe!". Traças planos loucos, movido pela vontade e desejo. Tens de a arrebatar. Agora. Já.
Sexta-feira sem sossego!

Arrebatada

Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada

quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada

Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata

quero o cume da avidez 
e do delírio 
sequiosa faminta apaixonada

Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz

Eu quero a lava

Maria Teresa Horta 


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Outonos meus


The 5 6 7 8
Woo hoo 
BSO Kill Bill

Outono de trabalho

É rápido e feroz
Insensível
É o frio dos números 
Gritos e discussões 
É adrenalina
Corre corre
É compensar
Luta desigual
É agitação 
Almoços e jantares 
É vertigem 
É para lutadores
É para mim


Homens temporariamente sós
GNR

Outono lá fora

É dourado 
Pelo quente do Verão 
É cheiro de brasas
Lumes que aparecem
É romãs e castanhas
Comida quente
É um sobretudo elegante
Uma manta no sofá 
É vinho, tinto
Conhaque e whiskey  
É quente no algodão 
Corpo a pedir corpo
É toque de pés 
Abraços longos
É mais carinho
Amor e paixão 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

nuvem

Pat & Rosemarie Keough

Acordei. Vi a nuvem.
O mundo está plano.
Outra vez.
O mundo está quadrado.
Outra vez.
O céu, azul.
Celeste.
Uma nuvem, branca.
Imaculada.
Falei aos deuses da física.
O quadrado vai virar.
Vou abrir os braços.
Vou cair.
Na nuvem.
Foi jura.
Vamos viver lá para sempre.
Se fosse redondo,
Escorregava
Apanhava-te
No outro hemisfério 
A Sul 

A lembrança da nuvem. Prometemos viver lá. Hoje vi a nuvem. Tu já lá moras. Naquele algodão podemos tudo. Mereço eu tanta sorte. Assim, enquanto não chego, escrevo-te daqui e assim. Pedi para que não haja vento. Não fujas. Estou a chegar. Agarras-me?

Estou nas nuvens.

Pudesse eu gritar ao mundo.
Pudesse eu gritar aos deuses.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Cinema - arte (3)


Quentin Tarantino

O cinema sempre foi uma forma de arte muito presente em mim. De pequeno, pela mão do tio João, a ver as super produções de Hollywood dos anos 40/50, no Tivoli. Mais tarde, por mão própria, nas salas do Quarteto (falecido), perto de casa. Visitas bi e tri semanais. Eram um regalo. Em casa, sempre um bom filme em detrimento do que quer que fosse. Com os filhos as idas ao cinema ruíram. Tenho então centenas de DVD's, porque quando gosto da história ou de personagens, ou ambos, compro. E gosto muito de rever. Filmes há que já vi cinco vezes. E é arte, admiro cenários, enquadramentos, histórias e personagens.
Gosto nos realizadores de Kubrick e Oliver Stone. Gosto nos actores de Al Pacino, Robert de Niro, Marlon Brando, e muito do Kevin Spacey. Nelas, Meryl Streep, Jodie Foster, Kathleen Turner  (pelo ar maternal que me inspira) ou Catherine Zeta-Jones (pela beleza). E muitos,  muitos outros.

Tenho um prazer lato, como na música, mas também um nicho (na música é o punk). É quase fetichista. É de difícil explicação. Os filmes de Quentin Tarantino. Sim, são violentos. E são violentos, não no sentido de Hollywood, com muitas explosões e mortes. É violência quase real. E depois há fabulosas personagens. Há dos mais fantásticos diálogos. Eu tenho uma cópia do guião do Pulp Fiction. Há o regressar a temáticas que me são caras com os spaghetti westerns, os gangster da América dos anos 70, os filmes de Kung Fu chineses. Todos de uma América dos anos 70, e que em Portugal passaram nos anos 80, sendo por isso importantes para mim. Há um gosto ímpar de Tarantino na selecção musical. Ainda hoje a banda sonora de Pulp Fiction é o único CD residente no carro.

Citações de Quentin Tarantino:

"Watch the movie closely, and you’ll see how personal it is. Here’s a film in which cinema brings down the Nazi regime, metaphorically and literally. What could possibly be better than that? In this story, cinema changes the world, and I fucking love that idea!"

"I've always thought my soundtracks do pretty good, because they're basically professional equivalents of a mix tape I'd make for you at home."

"Sure, Kill Bill's a violent movie. But it's a Tarantino movie. You don't go to see Metallica and ask the fuckers to turn the music down."


Deixo-vos os meus favoritos (por ordem de gosto pessoal), de Quentin Tarantino, como argumentista/realizador, com a nota do IMDb e respectivo link de acesso à ficha e trailer do filme:









Oscars - Academy Awards (2 Oscars)
2013 - Best Writing, Original Screenplay
Django Unchained (2012)
1995 - Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen
Pulp Fiction (1994)


Oscars - Academy Awards (3 Nominated)
2010 - Best Achievement in Directing
Inglourious Basterds (2009)
2010 - Best Writing, Original Screenplay
Inglourious Basterds (2009)

1995 - Best Director
Pulp Fiction (1994)

A Invenção do Amor

Este poema, sugestão da Deep, (que também o publicou lá no sítio dela, e bem) vem a propósito de um comentário que ela própria deixou neste post, Que história tão bem contada, que por sua vez, já era um repost da ana, de seu nome "engenho", lá no seu sítio. Por aqui se vê as maravilhas dos blogs, e das gentes que por aqui andam...
Contemplem o poema, digam de vossa justiça. Eu gostei, muito. E gostei da associação que a Deep fez à história que eu vi, e que a ana contou.
A Invenção do Amor
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Daniel Filipe

domingo, 13 de novembro de 2016

O Fantasma Ausência.


Manuel Galrinho

Foi ontem. Ainda sinto. O ontem foi há 24 anos. Parecem horas. Lembro-me de tudo. As feridas que não fecham. Esta semana estiveste comigo. Eu sinto. Andas a rondar-me. Qual fantasma bom. Eu sei. Senti. Beijas bem para assombração. Fechei os olhos. Senti, juro. Abri os olhos. Já não te amo. Muito menos na tua versão de espectro. Mas gosto da tua companhia. Eu sei. Andas a rondar-me. De dia para dia. Arriscas mais nessa pele de fantasma. Oxalá não me vejam a falar contigo. São os olhos verdes, não são? Podes dizer-me. Não está aqui ninguém. Eu sei. Cada vez que andam Olhos Verdes perto de mim lá vens tu. Podes ficar. Já não te amo. Mas gosto da tua companhia. Pena, debaixo desse lençol não vejo os teus olhos. Verdes. Não. Não te vou levar ao Jardim. Tens saudades? Guardo essas tardes com carinho. Confesso não te vou ver porque não quero. Habituei-me ao teu ar de fantasma. Não, já não te amo. Com ou sem lençol. Continuas linda para assombração. Um dia ganho coragem. Conto aqui o nosso reencontro. Também foi ontem. Um ontem com 12 anos. Sabes és boa companhia. Oxalá não me vejam a falar contigo. Agora vai. Volta mais tarde. Vai. Outro dia lembrei-nos. Não sabes. Foi aqui neste post.

Ausência

Por muito tempo achei qua ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada
nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade 

sábado, 12 de novembro de 2016

Pois...


Michael Kuniwaka 

Andam aí coisas más no mundo.
Mas...
Andam aí coisas boas.
Felizmente.
Ouçam só.
Não conhecia.
Eu bem preciso hoje...
Hoje o meu irmão precisou de mim...


One more night 


Black Man in a White world 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Inquietude, Isabel Pires

Inquietude 
Isabel Pires 

Este post é para mim. Fica aqui guardado. Tenho medo do Parkinson, e do Alzheimer. Sentimento pueril de que nunca me esquecerei das tuas palavras.

Nesta casa mando eu. Aqui não há encomendas. Aqui há a publicidade que eu quero. (a propósito dos anónimos... que elimino)

A Isabel Pires, que não conheço pessoalmente, é um gosto. É um prazer adquirido. E foi fácil, e foi rápido. E não sei explicar. Nem quero. Só a quero ler.

Há um conforto. Põe-me a pensar, a sonhar. Há todo o seu raciocínio.

É a minha descoberta. Num momento em que Bob Dylan é Nobel da Literatura  (!?!), Donald Trump é presidente dos EUA  (!?!), e Leonard Cohen morreu (!?!), a Isabel Pires resolve equilibrar a minha balança.

Pode parecer estranho. E é. Mas é o meu deleite.

O melhor é o que não se explica!

A Inquietude, da Isabel Pires, chegou. Andou no bolso, depois no carro. Já o li. Foi rápido. Dei por mim a inventar paragens de carro para o ler.

E escrevi. Não disse nada. Nem o rico português me salva.

Mais uma vez. Não quero explicar. Só ler-te.

Resta a minha gratidão.
Resta OBRIGADO Isabel Pires.

"Se eu pudesse dizer 
O que nunca te direi 
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei"
Fernando Pessoa 

"Há um lugar forrado a seda que ampara as palavras que nos apetece dizer e os sorrisos que deixamos cair.
Nunca contámos a ninguém.
Porque há um lugar que guarda o silêncio dos deuses que deixamos entrar."
Isabel Pires 






quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Homem chora


esta imagem pode ter direitos de autor

Na Criação
No Gênesis
Fez Deus o Mundo
Fez nascer Homem
Fez nascer Mulher
Diz que à sua imagem
À sua semelhança
Digo eu, ao mesmo tempo

Um homem não chora
Ou chora
Se a mulher chora
Deus chora
O homem chora

E és tu mulher
Na grandeza do que me dás
E és tu mulher
Que podes em mim
Mais do que deus
E és tu mulher
Que fazes de mim deus em ti
Quando tudo me entregas
Quando a tua intimidade
É o meu divino jardim
E és tu mulher
Que me fazes chorar
A mim teu homem e teu deus

Não há verso
Não há prosa
Onde a minha tinta preta
Gritem o deus
Que na noite de mim fazes
E então
Ofereço as minhas lágrimas
O maior bem
Que do homem vem
A única maneira
Do homem te dizer
A ti mulher
Que te amo

O Homem chora.



terça-feira, 8 de novembro de 2016

Paradise City


Saul Hudson aka Slash

Sou abordado na rua. Um aceno, com desprezo. Como quem chama um escravo. Começa mal. Bom dia. Como está Sr de Tal? Tenho que reclamar consigo. Se fosse de mim era pior, comigo tudo bem. Bom dia correspondente nem vê-lo. Começou o rosário. Falou. Progressivamente aumentou o tom de voz. Aprendi a não  interromper. Adicionou gestos com mãos e braços. Já gritava. Queria intimidar. Sem sucesso. Já não o ouvia. Reparei que as folhas dos plátanos estão em queda, acentuada. Mais andaimes no mosteiro. Arrefeceu, o tempo. O Sr de Tal não. Volto a encarar. Grita e esbraceja. Passa um carro. Pelo vidro saí a música Paradise City, dos Guns and Roses. Sou transportado. Que anos loucos. Paradise City where the grass is green and the girls are pretty. Tempos bons. E o de Tal, grita e esbraceja. Reparo que quem passa já olha para nós. Além da tentativa de intimidação, ganho espectáculo público. Triste. Tenho de acabar com isto. Soluções? Opções? Viro costas. Faço um apelo à calma. Dou-lhe um murro, porque entretanto já sou ladrão. Os acordes do solo do Slash. O carro parou. Saí uma linda jovem. Nem nascida era nestes acordes. É bela. De soslaio, viu o espectáculo. Tinha caracóis. Negros. Tenho filhos. Preciso de comer. Lá se vai o merecido muro. A minha indiferença aumentou na mesma proporção que os gritos, os gestos, a audiência a tão triste espectáculo. Respondo. Baixo. Já percebi. Não percebi porque não ouvi. O melhor é o Sr de Tal passar a escrito essa reclamação. Escreva. Tem mais impacto. Farei chegar aos meus superiores. Apresento-lhe a mão direita. Viro costas. Escrevo? Eu passo por lá e ajudo-o. Mas... mas nada energúmeno,pensei, até te ajudo a escrever.

Caminhei, respirei. Entrei na agência de viagens. Comprei duas passagens para Paradise City.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rimas do passado, sobre o hoje


Mary Ellen Mark, 1969

Sonhas
Não olhas em concreto
Demoras no passado, lento
Mudavas tudo
Mudavas nada

Trabalhas
Compraste uma vida
Não é a tua, estás em dívida
Cumpres o contracto
Pagas um pacto

Choras
Ouves um adágio
Ensurdecedor tic tac do relógio
Marca os dias que não param
Enroscaste nos dias bons que passaram

Rejubilas
Uma mulher, uma paixão 
O dom da vida, aumentou o coração
És igual aos demais
Não pedes muito mais

Tens uma vida boa
Que ninguém te a tira
Que a outros nem ecoa
Verdade ou mentira?

Rimas de 2001 sobre o hoje, e provavelmente sobre o amanhã também.

Um amor morto


Um amor morto,
de Carla Pinto Coelho

Parabéns à rapariga simples, a Carla.

Finalmente chegou. Ainda não li, obviamente. Estou deveras curioso. Mas dou já os parabéns, porque publicar um livro é sempre um feito assinalável. Que seja o primeiro de muitos.

Fiquei muito satisfeito por ver o nome de pessoas, cujos os blogs acompanho, mencionados no livro. É, sem dúvida, louvável esse apoio. Infelizmente não fui a tempo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Fauna de sobreviventes

Fauna

Isabel Pires falava hoje de sobrevivência. A Laura Ferreira falou outro dia, não me lembro qual, que via os colegas de trabalho como família. Ao longo do dia foi-se formando a relação.

E são como família, afinal é com quem passo mais tempo. E também não os escolhi, como a família.

São a minha fauna, de forma carinhosa, e não depreciativa. São quem atura as minhas piores personagens. O tipo frio e distante de poucas falas, ou então, o tipo exageradamente bem disposto e da piada fácil.

Não me julguem, são defesas. Assim fica difícil saberem o que realmente penso e gosto. Sem dúvida, o teatro podia ter sido carreira.

Nesta fauna temos de tudo.

Neles há um dotado de bom gosto intelectual, é de letras, sensível ao que o rodeia, de grande preocupação social. Bom homem. Gosta de adivinhar o que vou dizer ou fazer. E acerta. Acha que me conhece. Os outros, além da banalidade, nada há a salientar... definham com o passar dos dias, envolvidos no trabalho, deixando dias a pingar, sempre iguais, como uma qualquer torneira avariada.

Nelas, o mistério diverte. São más. Há uma que se veste, ou tenta, para parecer moderna. O problema é que a seda não fica bem ao pobre. A roupa, embora moderna e saída dos (melhores) blogs de lifestyle, não assenta no figurino de mocinha da aldeia. Sabendo disso, ou melhor, vendo isso, é assistir de camarote aos comentários em surdina, cuspindo veneno, das senhoras. Depois há, o que o Impontual falava hoje, de insinuação sarcástica, triste espectáculo, felizmente ocorre muitas vezes fora dos olhos dos demais. Também há delas decididas, fortes e lutadoras. Há uma dotada de elevada sensibilidade para as letras (embora direccionada em banalidades) e artes em geral. Sendo que é mulher que admiro, pelo que é, mas isso são contas de outro rosário.

Em comum temos os dias de suspiros, o cansaço visível, a vontade de fugir, o estar por necessidade. Os papéis, telemóveis e telefones num tilintar insurdecedor. O aturar gentes, e gentinhas, que não consigo adjectivar...

Em comum temos o facto de sermos sobreviventes. E não faz tempo, muitos padeceram, e ao longe a buzina já grita, mais vão padecer.

Oxalá passe ao largo da minha fauna.

fauna | s. f.
FAU▪NA
1. [Biologia] Conjunto dos animais próprios de uma região, de um meio ambiente ou de uma época geológica.
2. [Depreciativo] Conjunto de pessoas



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

É sobre o que me dás


Robert Cybulski 


Podia ser sobre o carinho do quarto
Podia ser sobre os segredos do teu lençol 
Podia ser sobre murmúrios e gemidos 

Mas era redutor

É sobre a generosidade que me dás 
É sobre o carinho que me dás
É sobre a coragem que me dás

É sobre o amor que me dás 

Esse mesmo que já se vê
Que chegou cedo
Que devia estar escondido 
Que eu já não disfarço 
E que me falta espaço 
Para acolher tamanha dádiva 




Li algures, alguém me mostrou, um texto sobre o dificuldade, ou a diferença, de amar no Inverno. Não há sol, não há pele bronzeada, não há nu. Aí se vê quem ama.

Quem ama, não ama pelo que vê, mas pelo que sente, ponto.