"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Poemas escolhidos

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

Penélope, David Mourão-Ferreira

Este poema é bem roupa para o C.N. Gil



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
 
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quando sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
 
Mas se isto puder contar-lhe
O que não ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
 
Presságio, Fernando Pessoa
 
Este é, sem dúvida, um bom presságio a chegar a uma rapariga simples, a Carla



Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
 
És carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
 
És a graça da vida em toda parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
 
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito,
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
 
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
 
À Beleza, Miguel Torga
 
Beleza, luz, harmonia, verso perfeito, jeito, alimento, essência dos anos, e mais e mais. São a beleza enfim. E é no regaço das suas escritas que repouso em paz. Porque merecem, a Isabel Pires e a Laura



Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra <amigo>
 
<Amigo> é um sorriso
De boca em boca
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
 
<Amigo> (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
<Amigo> é o contrário de inimigo!
 
<Amigo> é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
 
<Amigo> é a solidão derrotada!
 
<Amigo> é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
<Amigo> vai ser, é já uma grande festa!
 
Amigo, Alexandre O´Neill
 
Amizade porque o sinto quando vos leio. É o sentimento que serve a todos os outros que vou lendo por aqui. Obrigado.

10 comentários:

  1. Muito obrigada, conta corrente!
    Estes mimos sabem bem a valer :)

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    1. Eu sei :) recordei o bom que era contigo.
      Alegra a alma.

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  2. É pá...
    ...e não é que por acaso escolheste um nome pelo o qual eu tratava a minha piquena maior na minha antiga barraca?

    Aquilo chamava-se "A luxúria de Ulisses" e o meu nick era "Ulisses" logo era normal tratar a minha piquena por Penélope...

    Muito bonito, o poema.

    Muito obrigado e um fortíssimo abraço

    (Olha, bem que te podias juntar ao pessoal em Queluz no dia 29 - acho que aquilo até vai ser à tarde, devemos tocar por volta das 17:00 pelo que nem devemos chatear para outros planos, por isso, fica o convite...)

    :)

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    1. Penélope é um nome fabuloso. E sim o poema é muito bom. O David Mourão-Ferreira escrevia muito bem sobre mulheres e cama.
      Muito honrado pelo convite. Seria um grande prazer estar convosco. Mas para o fim de semana 28/29 já há planos...
      Estou certo que haverá mais oportunidades. Obrigado pá.

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  3. Li o «meu» poema com aquela sensação esquisita de ter ali tanto de verdade que me leva ao seguinte: mas afinal como é que me conheces tão bem? :)

    E o sujeito podia ser um «ele», porque me sinto muitas vezes assim, a dizer as coisas sem as dizer propriamente.

    Gostei tanto!!! :)

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    1. Conheço de te ler. Aqui a escrita revela tudo sobre nós, muito mais que o dia-a-dia vivido. E se eu gosto de te ler :)

      Gosto muito de me ver quando me acontece como na primeira quadra, sem saber falar a uma mulher :) ainda vai acontecendo.

      Ando curioso com o teu livro :)

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    2. Oh! Não esperes muito, é só um textinho. :)

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    3. Modéstia tua :)

      É só andares apaixonada :)

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  4. CC, deixaste-me com um sorriso franco, daqueles que me são mais verdadeiros. :)

    obrigada de coração.

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    1. Aí vocês e o obrigado.

      Que escrevam muitos e muitos anos.

      É no regaço da vossa escrita que também eu encontro alegria sincera.

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