"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

domingo, 2 de outubro de 2016

A Varanda

A varanda ao fim do dia. Ritual de Primavera ao Outono, minutos de contemplação e gáudio. Fim de um dia, acendo uma cigarrilha, saboreio o vinho e vejo. Em primeiro lugar, as cores, o azul, diria celeste, o laranja, diria morto, do céu e do sol. Nunca as vi retratadas em nenhum quadro com esta beleza. Inigualável natureza. Depois, o jardim.  As roseiras, as palmeiras, o cedro ao centro, a árvore enorme cujo o nome desconheço, a oliveira, demais arbustos e árvores baixas. As palmeiras, daquelas pequenas, com base larga que ramificam em várias, foram esta Primavera casa de muitos pardais. Os ninhos ainda lá estão. Já não mora lá ninguém. No cedro, ao centro, grande, manda um casal de rolas. Dizem que são africanas. Moram aqui há muito. Já lhes vi vários filhos. Foram à vida deles. Os melros bem tentaram ganhar este castelo, sem sucesso. Mas vêm aqui picar o chão ao fim do dia. Minhoca é o alimento. O macho é bonito. Preto luzente, bico laranja. É bom, tempo a pensar nisto, a ver, nada mais. Lembrei-me. Já temos orçamentos para a morte da árvore grande. Já chega a um terceiro andar. Pior, as folhas sempre em queda sujam o terraço vizinho, as raízes rompem o muro. Temos de matá-la. Infelizmente.

O jantar está no forno. A cigarrilha acabou, o vinho também. Já regresso. Será noite, acompanha café e um cognac. A visão é outra.

O silêncio, e o escuro, esconderam os bichos. A temperatura boa, embora já se note o Outono. O cognac aquece, mima. Agora que nada se vê, a cabeça foge apressada. Os últimos meses em catadupa. Boas sensações, rostos em flash rápido. Gentes novas que chegaram, algumas que já partiram. Tudo para o somatório. Chefe novo para a semana. Depois férias, a última semana do ano, por sinal. Alegria pueril, planos muitos, dias poucos. Chego a ti. Ainda tens mais planos. Avisei que desta vez não serei raptado. Um dia será nosso. Só nós. E mais umas refeições pelo meio. O romance, oxalá o bloqueio pare, urge avançar.

Pensei isto, e muito mais. É a varanda. Igual às demais, mas esta é minha. Dali vejo o mundo. O meu mundo, que só não é maior porque não deixo.

8 comentários:

  1. O entardecer numa varanda e o pensamento a voar. Gosto desses momentos. :)

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  2. Gosto desta tua varanda, conta corrente. Parece serena hoje.
    Porque não queres que o teu mundo seja maior? (não é que um mundo maior seja necessariamente melhor.)

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    1. Serena e relaxante.

      Sabes é aquele sentimento de que o mundo assim como está basta-me. É suficiente.

      Podia ser maior, podia. Já foi muito maior. Mas está bem deste tamanho.

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  3. A varanda pode ser igual ás demais, mas a pessoa que lá está e a sua visão não é! =)
    Beijinhos

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    1. Olá.

      Que bela e simpática presença.

      Obrigado

      Lá irei aí Chic Ana ver se consegues ajustar as velas como diz o Jimmy Dean :)

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  4. tenho uma assim, onde gosto muito de estar ao fim da noite.

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    1. Olá :)

      Tens andado por lá? Espero que sim, ando com saudades de te ler.

      :)

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