"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

domingo, 9 de outubro de 2016

A casa da Tia Gertrudes

A casa da Tia Gertrudes marca o início da minha paixão por Lisboa. Voltaria um dia. Estive lá parado à porta. Já lá não mora ninguém. Rua Damasceno Monteiro, ascendente para a Graça, descendente para a Almirante Reis. Mais perto da Graça.

Ela muito pequenina, cabelo loiro, sempre em permanente, olhos claro, lábios pintados, bonita e com classe. Ele, nascido e criado em Lisboa, alto, bigode pequeno sempre aparado. Cabelo negro puxado para trás, cheio de brilhantina. Voz grave, rouca, radiofónica. Sempre bem vestido. Em casa, camisa interior branca de alças.

Prédio antigo, escadas de madeira, com corrimão em ferro trabalhado. 3 pisos, penso. Cada patamar com 4 portas, uma vez que todas as casas tinham o chamado quarto independente.

Nesse ano, calhou-me o quarto independente. Grande, cama de casal, roupeiro e secretária. O resto da casa era simples. Corredor longo, quartos de um lado e de outro. Era cerca de seis. Todos com duas camas pequenas, dois guarda-roupa e duas secretárias. Havia tábuas na parede para fazer de estante. ao fim do corredor, a casa-de-banho comunitária. Ainda no final do corredor, à esquerda a sala, à direita a cozinha. Da cozinha, uma porta dava para o quarto da tia e do tio, separado portanto, com casa-de-banho privativa.

A casa era um fervilhar de vida, de estudo e cultura. Comiam todos à mesa, na cozinha. Mesa grande corrida. O tio João no topo, e eu convidado no outro topo. Só aceitavam rapazes, quase todos da região oeste. Havia o passa a palavra de um estudante para o outro.

Eu tinha um quarto só para mim, o independente. Levei vários livros, que dispus ordenadamente na secretária. Bandas desenhadas do Major Alvega, Júlio Verne e as Vinte Mil Léguas Submarinas
e a Viagem ao Centro da Terra. Um bloco branco de folhas A4 e duas canetas. A seguir ao almoço era certo, ida para o quarto. Era hora da sesta, os tios não abdicavam. Livros, ler, escrever e desenhar.

O resto do tempo era muito bem ocupado. A tia levava-me a conhecer Lisboa. A Graça e suas vistas. O Castelo, claro, não há criança que não goste de um bom castelo. A Baixa e Belém. Infindáveis passeios de cacilheiro. Remar no Campo Grande. A Estufa Fria. Era tão grande Lisboa. E o metro, e o elétrico, o 28 acho eu. E as gentes, tantas. O supermercado na Graça, a grande mercearia. Na minha cidade já havia, mas eu não ia. Tinha tudo. A tia instruiu-me nas artes da mortadela, salpicão e derivados. Eu pensava que só havia chouriço.

O tio João, adorava os sobrinhos. Não tinha filhos. Eu em particular. Porque era calmo, na época, ouvia e gostava de aprender. O tio João levava-me ao Tivoli. Não me esqueço da cúpula. Ele era fã dos grandes clássicos de Hollywood, as grandes produções históricas. E eu também, se eu gostava. Grandes maratonas no cinema, Quo Vadis, Ben-Hur, Os Dez Mandamentos. E mais, os mudos de Charlie Chaplin. Recordo também, a ida ao Pavilhão Carlos Lopes, ver o Tarzan Taborda lutar.

Os estudantes divertiam-se a fazer-me aviões de papel. Havia na sala dois posters grandes do Eusébio e da Amália. O tio João tinha uma colecção infindável de disco de fado. Uma enorme aparelhagem, duas colunas gigantes. Na altura grande era bom, agora quanto mais pequeno melhor. Tinha dois decks de cassetes, inimaginável para o comum português. Um deck sempre, mas sempre, ocupado com o hino do Benfica, o outro cassetes dos Beatles.

Foi a primeira Lisboa que efectivamente conheci. Já la ia antes. Não conhecia.

No ano seguinte ainda lá voltei.

Morreu um pessoa. Nova, muito nova. Mãe de um colega do meu filho. Lembrei-me dos meus que já tinham morrido. Alguns há muito tempo.

Lembrei-me do Tio João e da Tia Gertrudes.

2 comentários:

  1. conta corrente, bom saber assim da tua descoberta de Lisboa :) Parecia bom o teu alojamento.

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  2. E era. E tenho saudades daqueles tios.

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