"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Fotografia - arte (2)

"A fotografia é o processo, e a arte, que permite registar e reproduzir..." e não é preciso dizer mais.

Se no caso da Música não há grandes traços genéticos que me tenham sido transmitidos, já na Fotografia, há aqui uma herança. O meu pai, era um excelente fotografo amador. Desde pequeno que me habituei a conviver com ele, e claro com a sua máquina Pentax. Chegava a ser exaustivo na hora dos retratos, ou melhor quando olhava para os filhos e via que a luz era perfeita. Maçava tanto detalhe. E fez slides. Lá em casa havia (há) um reprodutor de slides, e passei horas a ver carros no ar no Rally de Portugal. Estava-lhe no sangue. Ao meu irmão, não lhe reconheço jeito particular, herdou outras coisas. Eu, bom, eu tive uma namorada que uma vez me ofereceu uma máquina fotográfica. Nesse mesmo ano, fomos à Suíça. Não mais larguei a máquina. Até ao nascimento dos meus filhos fiz milhares de fotografias, estudei um pouco o tema. Desde o nascimento do meu primeiro filho, a minha querida Nikon avariou, ou melhor emperrou. Trabalha, mas a custo, sobretudo movida a paciência, que me falta. Pouco ou nada tenho fotografado. Planos muitos, sobretudo para comprar nova máquina, e voltar a andar sempre com ela.

Tenho para mim que é uma arte solitária. No sentido em que fotografo para mim, para meu gosto pessoal. Afinal eram os meus olhos, a minha visão, no meu momento. Se calhar por achar que é um acto solitário gosto tanto. Claro que todos gostamos que nos digam que uma foto nossa é fantástica. Mas o objectivo era o meu gáudio.

Aqui, neste fantástico mundo, gostei muito de ver que quase todos vós juntam, ao post, uma foto. O que de facto, significa que todos vocês valorizam a fotografia, tal como eu, como forma de arte. Cada post acaba por ser a demonstração de duas formas de arte, as letras e a fotografia. Outras vezes música, o que também é excelente.

Deixo-vos aqui alguns trabalhos (de um portefólio extenso), certamente haverá melhores. Resolvi não incluir retratos, pois há época fui solicitado por muitos amigos para, no maior amadorismo, fazermos algumas sessões. Estou pois devidamente autorizado, até porque, já foram alvo de publicação noutras bandas. Mas, o retrato tem sempre um cunho pessoal demasiado forte, de quem fotografa e de quem é fotografado.

Como veem, puro amadorismo, mas que me trouxeram excelentes sentimentos, num acto perfeitamente intimista.

 
Berlengas
 
 
Bruçó, Mogadouro, Trás-os-Montes

 
Pavão, Serra do Montejunto

 
Veneza, Itália

 
Bairro Judeu, Sevilha, Espanha
 

Sentido da vida (de muitos)


Herbert List, 1937

Chamo-me João Teles. Tenho 78 anos. Foi-me diagnosticada uma doença terminal. Os últimos meses foram passados nesta cama. Tubos e aparelhos vários como companhia. Há uma janela. Vejo a copa de uma árvore. Vejo ora o azul, ora o cinzento do céu. Vejo estrelas ou negro puro. Aqui estou. Prorrogam a minha estadia aqui, para não sofrer, dizem. Aqui estou. Espero o dia. Já não me ocupam grandes pensamentos. Já os pensei todos. Agora só espero. Hoje vai ser o dia. Houve um sinal. Um corvo negro luzente na janela.Mandei chamar o meu neto Ricardo. Não tardou a chegar.

- sabes hoje vou morrer. E por isso queria falar-te. Não gostei da minha vida. Errei.

- não diga isso. Todos o adoram.

- sim, eu sei. Todos me adoram. E sei porquê. Porque vivi para todos eles. Vivi sempre para os outros. E por isso te digo que não gostei da minha vida. Esqueci-me de mim. E hoje que tudo vai acabar queria que o soubesses. És igual a mim. Não cometas o mesmo erro. Usei todo o meu tempo nos outros, e nenhum em mim. Não gastes o teu tempo só nos outros. Não li e não vi. Não viajei. Não fiz e não escrevi. As mulheres que não amei. Chego hoje ao último dia, todos me adoram, e eu não gosto de mim, só porque não vivi.

- não diga isso. Hoje não é o último dia. Descanse.

- não te esqueças. O sentido da vida, e o que é realmente difícil na vida, é o equilíbrio entre o que dás e entregas, aos outros e, a ti próprio...

domingo, 30 de outubro de 2016

Música - arte (1)

 
William Claxton, 1955

Música

É talvez das formas de arte a mais presente em mim. É das mais democráticas. Pela leitura deste blog ninguém, certamente, adivinhará qual o meu género preferido. Só é preferido porque se tem mantido em mim ao longo dos tempos. Admito que não é do gosto de qualquer um, ou seja, não transmitirá nada a muitos.

Falo do estilo Punk. "O estilo punk rock tradicional caracteriza-se pelo uso de poucos acordes, em geral power chords, solos breves e simples (ou ausência de solos), música de curta duração e letras rebeldes, sarcásticas que podem ser politizadas ou não, em muitos casos uma manifestação de antipatia à cultura vigente." Está ligado a mim, ponto final. Bandas: The Clash, Sex Pistols, Ramones, e os portugueses Censurados, as malucas da banda L7. Músicas: Blitzkrieg Bop, Should i stay or should i go, Anarchy in the UK, Angústia e Não, Shitlist ou Pretend we´re dead, são exemplos.

Em simultâneo, com a rapidez do punk rock, conviveu o chamado estilo rock alternativo. Mais calmo, ou não. Bandas: Pixies, The Breeders, Smashing Pumpkins.

Logo de seguida, e mantendo-me fiel aos estilos anteriores, chegou o Grunge (ou Seattle Sound). Mais não é que um subgênero do rock alternativo. Bandas: Nirvana e Pearl Jam.

Com o fim da vertigem da fase rebelde e adolescente, fui começando a olhar para a música de forma mais calma. Procurando a perfeição em vozes, e na complexidade musical com maior número de acordes.

Chegou a fase dos Blues e do Jazz, que são a par da música clássica, formas muito mais elaboradas. Hoje perco muitas horas no Jazz e Blues, do mais puro a variantes. Apaixonei-me, recentemente, pelo som do contrabaixo.

Não tolero música electrónica pura, feita sem acordes, baseada em efeitos sonoros e remixes num qualquer computador.

Tudo isto para dizer que a música é algo de muito importante no equilíbrio do ser humano. Algo que nos distingue, algo que nos dá prazer, como toda a arte. Posso dizer que sou bastante eclético na música. Se a música me transmitir sentimentos, então ouço.

Na passada sexta-feira, fiz a minha estreia com uma Big Band. E logo, a Gleen Miller Orchestra. Foi fantástico ouvir músicas como In the Mood , Moonlight Serenade , American Patrol

Deixo aqui uma música, que a Gleen Miller Orchestra tocou, não sendo um original de Gleen Miller, mas sim de Benny Goodman. Foi fantástico o solo de bateria que ouvi.


Sing, Sing, Sing
Benny Goodman Orchestra






sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Confronto



Arnold Newman

Igor Stravinsky, New York, 1946

Ontem
Noite alta, na minha Varanda
Sem sono.
Aproveitando o calor tropical.
Pensei em mim.
Parece simples, mas não é.
Foi um daqueles momentos, raros, em mim. Confrontação, é o nome.
Confronto com as tuas incapacidades, medos e defeitos.

Ontem
Falei, por assim dizer, com uma pessoa nova, também por assim dizer.
Falei porque não foi falar.
Nova porque não é totalmente nova.
Não falámos muito, mas deu para perceber, que é determinada, toma decisões difíceis, luta para melhorar a sua vida.
Não se inibe de tomar em suas mãos o rumo da sua vida.
Sim, certamente, nem tudo serão rosas.
Mas fiquei com a sensação de que se era preciso mudar, ela luta, e muda.
E se não der, continua a tomar decisões, e muda novamente.

Hoje
Já tomei algumas decisões.
Mas, voltando ao meu confronto, falta-me a força e a determinação.
Cada vez mais.
Não gosto de me confrontar.

Hoje
Fico feliz por conhecer pessoas como eu não sou.
Sobretudo assim.
Mais ou menos inesperado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Assim não fugirei


Peter Lindbergh
Mathilde on Eiffel Tower, 1989

Conheço-te
Queres-me agarrar, prender-me.
Queres entrar em mim.
Controlar tudo dentro de mim,
e para fora.
Assim não fugirei.
Conheço-te
Está determinada.
Serei teu.
Dás tudo ou nada.
Assim não fugirei.
Não te julgo, nem censuro.
Estás amar.
Quem se entrega como tu, tudo pode.
Assim não fugirei.
Alertei-te da fuga.
Um beijo forte.
Tu lutas, sobrevivendo.
Eu sofro,
não sei se te correspondo.
Fazes do nosso ar,
o teu precioso néctar.
E lutas e lutas.
Tudo isto está escrito,
nos teus olhos.
Tudo isto está escrito,
no sabor do teu beijo.

Parece uma inversão de papéis. Sempre amei em força, um rodopio de entrega total. Sinto-me eu, agora, no centro dessa força.

E isso é bom.

Será o que o laranja quiser.

Nascer de mais um dia
CC, Verão 2016

E porque nasce o dia
tudo pode acontecer
não vale chorar no ontem
o que começa tudo pode fazer

É um desabafo. É um processo interno de convencimento de que tudo só pode melhorar.

E porque nasce o dia. Sejamos francos,
sortudo somos. Nada, mas nada, flui no que achamos serem os nossos desígnios? Mas o novo dia, quem advinha. É neste laranja, sem nome, que faço projectos. Porquê? A magia do nascimento é mesmo essa, e não é segredo, é não saber o que esperar. Não vale planear. Vale e de nada serve. Lembrem-se do que não foi arquitectado. Quantas pessoas, carinhos e afectos, histórias e surpresas aconteceram naquele dia. É efêmero o que de bom aparece. Mas é efêmero o que não parecia ter solução e naquele dia solucionado foi. Como por magia, passou a fazer sentido.

Alguém que dê um nome bonito aquele laranja.
Esse laranja que nos diz calma.
Afinal não sabes o que aí vem.

Lembro-me sempre deste dia. Está a fazer anos. De manhã despiste de carro. Que azar. O trabalho em caos. Despedimentos e rescisões. Só sobrei eu. Família com problemas, desemprego também. E o dia que nasceu assim, acabou com uma bebé linda nos braços. Nesse dia nasceu o meu segundo filho... e nada o fazia prever... naquele dia.

Será sempre um dia de cada vez.

Será o que o laranja quiser.



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

a criação de Eva


Michelangelo, A Criação de Adão


Sentei-me com uma missão. Folha branca, sempre. Ponta fina, preta. É no silêncio da noite, no escuro, que vais nascer. É a minha hora. Criar, riscar, fazer nascer ou matar. Dou-te um nome. Vais ter um corpo, um cheiro, uma vida. Serás uma bela criação. Serás a mulher ideal. Não, ideal não. Ninguém é perfeito. Vou pôr-te defeitos também.

Terás olhos azuis e cabelo negro. Disso não abdico. Os teus olhos terão tanto de paixão como de frieza. Serás dinâmica, forte e determinada. Insensível por vezes, serás cruel. Não, tanto não. Ou sim, sim serás isso e mais. Volto a riscar a folha, recomeço. Estou exigente. Quero apaixonar-me por ti. Enfim, já estou. Mais uma linhas.

Será isso?
É escrever.
Fazer de deus pequeno
numa folha de papel branco, liso.
Será isso?
Uma manipulação dos seres que criámos,
qual marionetas, manietadas, sem dó.
A voarem nas linhas, ao sopro da ponta fina, preta.

És perfeita. Não és. És o que és. És o que eu criei.

Deixas-me cansado.

Só queria uma mão de Deus, para me ajudar, para criar mais uma Eva.

Eva não, serás Laura. O nome há muito que fora escolhido.

domingo, 23 de outubro de 2016

Que história tão bem contada

 
Flor Garduño, Wise Book, 1997

Recentemente vi uma história. Uma história de vidas. Vidas confusas e estranhas, entre um homem e uma mulher. Quando deram por eles, viram o que não podiam. Não deviam. Não houve tristeza. Não houve nada. Constataram a perfeição da história comum. A vida seguiu.

É daqueles momentos que mais tarde, uns anos, serão recordados com saudade. É daqueles momentos que, ao serem relembrados, acabam sempre num e se...

É uma história bonita.

Como não a sei contar, estou feliz. Vi esta história muito bem contada em casa alheia. Li e pensei, vou guarda-la na minha casa.

Obrigado Ana.


então fizeram uma cidade com os sentimentos, e nessa cidade havia muros que os protegiam, um do outro. sabiam que não podiam atravessar essas barreiras, correndo o risco de estarem a invadir espaços profundos e movediços. e eram essas as margens que limitavam o que diziam e o que questionavam, um ao outro. podiam até dar asas aos seus sentimentos, se não manifestassem os mais fortes, ficando sempre, um no outro, a dúvida sobre o que o outro sentia. embora odiados por um, eram esses limites que os mantinham próximos, e tornavam possível aquele relacionamento que durou muito mais do que o esperado.

foi de repente que aconteceu. e seria preciso retroceder no tempo, não cronologicamente, mas em profundidade, para ver o momento em que começou a acontecer, quando, à medida que se distanciavam, um do outro, as muralhas começaram a diluir-se na névoa da memória longínqua. em simultâneo.






quarta-feira, 19 de outubro de 2016

As cores


A Casa | aguarela
Autora (muito) minha conhecida


A tua mais fantástica criação. A Casa. Vi nesses olhos grandes, cor de mel, a tua concentração. Afinal era A Casa. Não a tua, a dos teus sonhos. É soberba disse-te. O que é a soberba? - perguntaste. Um dia digo-te. Fascinei-me a ver-te. Como sempre. Não resisto ao teu empenho. E as técnicas de aguarela, dominas, controlas tudo. Cada pincelada, o molhar do pincel. Já sabias. Querias era saber as cores. Ensinei-te. A Casa, de que cor? Cor-de-Rosa, pai. Mistura estas duas. Pai é cor-de-rosa! Sim. Há mais, muitas mais. Quero paredes azuis. É este. Não sabes. Tens o mundo na ponta do dedos. Um dia serão palavras, disse-te. Não percebo, respondeste. Um dia... acredita em mim. Quero mais cores. Vamos fazer laranja. Outra folha. Vou fazer A Casa. Sim, não pares. Fizemos da mesa a mais colorida de todas as cidades. Já chega. Tens tempo, amanhã pintamos o mundo. Agora já sabes as cores.

Saudade. Simples.

Caímos na tentação. É fácil ou não. Queremos encher de palavras, rebuscadas ou não, a folha branca. É um exercício. Explicar um sentimento, um só, em mil  e uma palavras. Ajustamos formas, estilo e pontuação. É para agradar.

Sabe-me bem fazê-lo. É bom para mim, feito para ti. É uma manifestação. Às vezes resulta numa epifania elaborada. É bom.

Faz amanhã uma semana. Só queria dizer que tenho saudade. Só isto. Tenho saudade. Assim, tão simples. Tenho saudade.

Deixo-te uma música. Também ela simples em acordes e letra. Simples.


Ain't no sunshine, Billy Withers, 1971 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Indiferença

 
Man in Black, Arthur Grace, 1987
 
A indiferença é o meu pior sentimento. Ao pé de ti não há nada. Secas tudo, és o pó dessa mesma seca. Deixas-me mal, incomodado, quando sinto indiferença por alguém. És o mais vil dos sentimentos. Prefiro sentir ódio por alguém a ti, a indiferença surda e muda. Que ser humano sou eu quando por alguém nada sinto, nem amor ou amizade, nem ódio ou dor. Fazes de mim o que não sou. Mas estás cá, às vezes estás cá. Nem perco tempo, só me resta esperar que passes, e vás encontrar poiso noutro espaço. Esta é a minha vitória, tu não duras, tens vida curta aqui. És perfume barato. 


Inesquecível...

 
O Asiático*
Rua da Rosa 317, Príncipe Real
(a partir de 3ª feira, dia 18, pelas 19h30m)
 
 
Inadvertidamente apaguei o meu post de sexta-feira, intitulado de Inesquecível. Não sendo nada de especial, relatava o passado dia de 5ª feira, que foi, sem dúvida, inesquecível.
 
Estivemos juntos, com inúmeras surpresas. Não estamos muitas vezes juntos. Queiramos aproveitar ao máximo.
 
Levei-te a almoçar, em total estreia, aquele que será um dos novos sucessos da restauração de Lisboa. Grande azafama de preparativos finais. Uma mesa só para nós, e o Chef a cozinhar só para nós. Comida Michelin como gostas de dizer, claro. A espuma de ostras, o ceviche de atum, o pregado com choco e bivalves, a sandes de barriga de porco confitada em pão chinês cozido a vapor em cesto de bambu. A sangria, escandalosamente alcoólica. Comida dos deuses em companhia divina. Conquistáveis pelo palato.
 
Seguiu-se um passeio, esplanada e miradouro.
 
Ao fim da tarde, o nosso tango.
 
Já noite alta, a tua surpresa para mim. Levaste-me a um bar, um jazz bar pelos posters e decoração. Estava fechado, ou melhor, a fechar. Vazio só nós. O barman serviu-me o meu Bushmills. Começaram a entrar músicos, quatro precisamente. Tive direito a uma Jazz After Midnight session, uma JAM como dizem. Durante uma hora improvisaram. Maravilhoso. Fiquei apaixonado pelo contrabaixo, som grave, tocado com as mãos. Que som. Bebi depois um whiskey com estes homens. Começou no jazz o tocar o contrabaixo com as mãos, e não com arco. Chama-se pizzicato a técnica, aprendi.
 
Que dia. Não sei o futuro, honestamente não sei.
Obrigado.
Aconteça o que acontecer, estás cá, para sempre, não te esquecerei.
Obrigado. 
 
*o restaurante é absolutamente fantástico, abre dia 18 ao jantar. Servirá almoços e jantares, sem marcação nesta fase. Sei que nem todas as pessoas podem, o preço médio será de 40 Eur/pessoa. Mas se um dia quiserem, e puderem, arriscar, algo diferente em termos de comida é aqui.
 
  



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Mundo estranho às vezes.

- A malta escreve umas coisas. Umas reais, sentidas, outras ficção ou imaginárias. Ou então cenas boas ou más do dia-a-dia. Percebes?
- percebi pá! Então e usar o facebook não é mais fácil?
- é! Mas aqui tens a vantagem de não teres o lixo do Facebook, a publicidade do Facebook, escolheres ler o que queres ler, e de quem. Ah e não tens de fingir que és amigo de alguém, ou ler um amigo do amigo...
- ah pois isso do blog deve dar muito trabalho...



Esta semana a chegar ao hipermercado, parei o carro. Férias é sinónimo de horas ao fogão em festa. Agarrei em dois sacos. Ao meu lado parou um carro. O homem agarrou num saco e foi. A senhora ficou no carro a jogar um jogo de bolinhas no telemóvel.




- tu sempre foste assim. Não podes ver uma mulher que te desperte algo. O engraçado é que tens a mesma mulher... enfim 25 anos? Porquê as amantes?
- só amo a minha mulher. As amantes são  isso mesmo, amantes. Ninguém se magoa. Se calhar a minha mulher faz o mesmo. Não sei. E tu divorciaste-te porquê?
- arranjei uma amante.
- e?!?
- apaixonei-me por ela.
- nunca, mas nunca te podes apaixonar  pela amante!
- agora eu sei.



E porque fica bem citar um Nobel da Literatura:
"How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?"

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O que li esta semana em férias



 
A Mancha Humana, Philip Roth
 

histórias de Nova Iorque, Enric Gonzalez

Só porque hoje é dia de Nobel.
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A breve história de Milene Silva


A Milene Silva tinha um dom. Escrevia. Assinava sob o pseudónimo Laura Lemos. Nascida num meio rural sempre se sentiu marginalizada. Escreveu sempre em segredo. Desde os 16 anos que escrevia pequenos contos e histórias. Sempre foi vista como estranha por todos. Demasiado tímida, demasiado escondida no seu mundo. Sempre vítima da brutal pressão social. Da pressão de fazer igual aos outros. Brutalmente vergada às normas sociais, à necessidade de trabalhar, casar e ter filhos. Acabou por vergar. Fez o caminho que outros impuseram. Escreveu sempre em segredo. Dotada de uma sensibilidade sem igual para as artes, dotada de uma capacidade de sonhar ímpar. Contava histórias como ninguém.

O mundo será sempre pobre. O mundo é pobre. O mundo vai continuar pobre.

A genialidade não se compadece com normativos sociais castradores. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tango


Palco perfeito, o estrado.
Mesas de volta, miram-nos,
é a nossa vez, olhas-me confiante.
A postura é tudo, relembras.
Começa o violino. Estamos colados.
O mundo desaparece.
Compasso dois por quatro.
Com mestria, os oito passos.
Saídas, caminhadas, cruzamentos de pernas,
Arriscamos, ochos adelante, ochos atras.

Não vimos ninguém.
Presos na intensidade.
Atracção. Sedução.
Lábios quase a beijar. Desejo.
Meus olhos não te perdem.
Fazes o teu papel.
Empurras e voltas a meus braços.
Aumenta o prazer.
És minha, ali conduzo eu.
Violino a acabar.
Não resisto. É impossível.
Acabamos com os lábios a tocar.
 
Acordamos deste jogo.
São as palmas.
Coras ligeiramente.
Fomos comunhão.
Quem nos viu, percebeu.
É paixão.
 
 
esta semana repetimos?

domingo, 9 de outubro de 2016

A casa da Tia Gertrudes

A casa da Tia Gertrudes marca o início da minha paixão por Lisboa. Voltaria um dia. Estive lá parado à porta. Já lá não mora ninguém. Rua Damasceno Monteiro, ascendente para a Graça, descendente para a Almirante Reis. Mais perto da Graça.

Ela muito pequenina, cabelo loiro, sempre em permanente, olhos claro, lábios pintados, bonita e com classe. Ele, nascido e criado em Lisboa, alto, bigode pequeno sempre aparado. Cabelo negro puxado para trás, cheio de brilhantina. Voz grave, rouca, radiofónica. Sempre bem vestido. Em casa, camisa interior branca de alças.

Prédio antigo, escadas de madeira, com corrimão em ferro trabalhado. 3 pisos, penso. Cada patamar com 4 portas, uma vez que todas as casas tinham o chamado quarto independente.

Nesse ano, calhou-me o quarto independente. Grande, cama de casal, roupeiro e secretária. O resto da casa era simples. Corredor longo, quartos de um lado e de outro. Era cerca de seis. Todos com duas camas pequenas, dois guarda-roupa e duas secretárias. Havia tábuas na parede para fazer de estante. ao fim do corredor, a casa-de-banho comunitária. Ainda no final do corredor, à esquerda a sala, à direita a cozinha. Da cozinha, uma porta dava para o quarto da tia e do tio, separado portanto, com casa-de-banho privativa.

A casa era um fervilhar de vida, de estudo e cultura. Comiam todos à mesa, na cozinha. Mesa grande corrida. O tio João no topo, e eu convidado no outro topo. Só aceitavam rapazes, quase todos da região oeste. Havia o passa a palavra de um estudante para o outro.

Eu tinha um quarto só para mim, o independente. Levei vários livros, que dispus ordenadamente na secretária. Bandas desenhadas do Major Alvega, Júlio Verne e as Vinte Mil Léguas Submarinas
e a Viagem ao Centro da Terra. Um bloco branco de folhas A4 e duas canetas. A seguir ao almoço era certo, ida para o quarto. Era hora da sesta, os tios não abdicavam. Livros, ler, escrever e desenhar.

O resto do tempo era muito bem ocupado. A tia levava-me a conhecer Lisboa. A Graça e suas vistas. O Castelo, claro, não há criança que não goste de um bom castelo. A Baixa e Belém. Infindáveis passeios de cacilheiro. Remar no Campo Grande. A Estufa Fria. Era tão grande Lisboa. E o metro, e o elétrico, o 28 acho eu. E as gentes, tantas. O supermercado na Graça, a grande mercearia. Na minha cidade já havia, mas eu não ia. Tinha tudo. A tia instruiu-me nas artes da mortadela, salpicão e derivados. Eu pensava que só havia chouriço.

O tio João, adorava os sobrinhos. Não tinha filhos. Eu em particular. Porque era calmo, na época, ouvia e gostava de aprender. O tio João levava-me ao Tivoli. Não me esqueço da cúpula. Ele era fã dos grandes clássicos de Hollywood, as grandes produções históricas. E eu também, se eu gostava. Grandes maratonas no cinema, Quo Vadis, Ben-Hur, Os Dez Mandamentos. E mais, os mudos de Charlie Chaplin. Recordo também, a ida ao Pavilhão Carlos Lopes, ver o Tarzan Taborda lutar.

Os estudantes divertiam-se a fazer-me aviões de papel. Havia na sala dois posters grandes do Eusébio e da Amália. O tio João tinha uma colecção infindável de disco de fado. Uma enorme aparelhagem, duas colunas gigantes. Na altura grande era bom, agora quanto mais pequeno melhor. Tinha dois decks de cassetes, inimaginável para o comum português. Um deck sempre, mas sempre, ocupado com o hino do Benfica, o outro cassetes dos Beatles.

Foi a primeira Lisboa que efectivamente conheci. Já la ia antes. Não conhecia.

No ano seguinte ainda lá voltei.

Morreu um pessoa. Nova, muito nova. Mãe de um colega do meu filho. Lembrei-me dos meus que já tinham morrido. Alguns há muito tempo.

Lembrei-me do Tio João e da Tia Gertrudes.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Era um corpo a gemer com o toque da pele.

Ralph Gibson
Nude with venetian shadows, 1981

Era a tua pele. 
Pele do pescoço, cheiro suave de flor. Não sei que flor. Eras simples. Eras elegante, muito e em tudo.
Era o teu toque. 
O meu toque. Pontas dos dedos. O respeito. O avançar devagar como quem pisa gelo fino.
Era o gemer. 
Baixinho para o mundo não ouvir. Era prazer. Elegante e ofegante. Era um não faças mas faz.
Era o corpo. 
Eram dois. Embrulhados. Pés a amarrar pernas. Braços a amarrar troncos. Dois corpos em força a serem um. Embrulhados no lençol por nós perfumado, às riscas das persianas venezianas
Era...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Poemas escolhidos

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

Penélope, David Mourão-Ferreira

Este poema é bem roupa para o C.N. Gil



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
 
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quando sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
 
Mas se isto puder contar-lhe
O que não ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
 
Presságio, Fernando Pessoa
 
Este é, sem dúvida, um bom presságio a chegar a uma rapariga simples, a Carla



Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
 
És carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
 
És a graça da vida em toda parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
 
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito,
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
 
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
 
À Beleza, Miguel Torga
 
Beleza, luz, harmonia, verso perfeito, jeito, alimento, essência dos anos, e mais e mais. São a beleza enfim. E é no regaço das suas escritas que repouso em paz. Porque merecem, a Isabel Pires e a Laura



Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra <amigo>
 
<Amigo> é um sorriso
De boca em boca
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
 
<Amigo> (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
<Amigo> é o contrário de inimigo!
 
<Amigo> é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
 
<Amigo> é a solidão derrotada!
 
<Amigo> é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
<Amigo> vai ser, é já uma grande festa!
 
Amigo, Alexandre O´Neill
 
Amizade porque o sinto quando vos leio. É o sentimento que serve a todos os outros que vou lendo por aqui. Obrigado.

o amor antigo



O amor antigo, Carlos Drummond de Andrade

É Outubro. Passaram 12 anos. Todos os dias, eu, alguém, ou algo, me lembram. És uma ladainha boa, um desfiar bom de más e boas memórias. É só isso que és. Uma história digna de ser contada. E que feliz me deixa. É a minha história também. Já nada fazemos crescer. Já não há nada de físico. Há raízes fundas, como diz o poema. Mais não há. Uma história digna de ser contada. Só isso. Durará para sempre. Está gravada em mim. Um dia conto ao mundo.

Discordo do poeta. A nossa capacidade de amar é infinita. Até o amor antigo fenece, vergado à força do tempo. A recordação fica, para todo o sempre.

Ou será que não?

É por isso que está aqui o poema. Para ajudar. Para clarificar. Ou sou eu a enganar-me a mim próprio?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Lenços de papel... e nada mais.

Cheguei tarde. Era domingo. Um cântico já ecoava. Dois acólitos e um padre em procissão rumo ao altar. Vi-os ao longe. Escolhi o penúltimo banco. Permaneci de pé. Só quando me sentei dei conta. Ao meu lado uma mulher sentada. Mãos nos olhos, cobrindo a cara e cabeça baixa junto ao colo. Era nova. Assim parecia. Tinha sapatilhas e saía pouco abaixo do joelho. Assim permaneceu, mãos nos olhos, cobrindo a cara e cabeça baixa junto ao colo. Não demorei, estava a chorar em surdina. Era casada, tinha aliança. Marido nem vê-lo. Se feliz ou não, não sei. Cabelo bonito, caracóis, em dois tons. Pensei que se tirasse as mãos lhe leria os olhos. Mas como? Orações, cânticos e leituras. Permanecia, mãos nos olhos, cobrindo a cara e cabeça baixa junto ao colo. Lembrei os lenços no meu bolso. Porque chora? Tristeza denunciada ou alegria na satisfação de uma prece. Segue o sermão. Ganhei coragem. Toque lento no ombro. Finalmente os olhos, molhados, carregados, claros. Ofereço os meus lenços. Agradece num ligeiro corar,  como quem só agora percebeu que há mais gentes no mundo. Não li os olhos. Eram claros. Não há dúvida. As lágrimas toldavam a vista dela e a minha. Fiquei a pensar. Seria tristeza ou alegria. Queria ajudar. Nenhum gesto faria sentido. Só a gentileza dos lenços. Que impotência. Não gosto de ver mulheres chorarem. Quase ao fim a luz. A cara, aquela cara. Aqueles olhos. Eram conhecidos. Memória longínqua. Tinha mais uns 10 anos que eu. Era professora. Começou estava eu a sair do secundário. Será que me reconheceu?

domingo, 2 de outubro de 2016

A Varanda

A varanda ao fim do dia. Ritual de Primavera ao Outono, minutos de contemplação e gáudio. Fim de um dia, acendo uma cigarrilha, saboreio o vinho e vejo. Em primeiro lugar, as cores, o azul, diria celeste, o laranja, diria morto, do céu e do sol. Nunca as vi retratadas em nenhum quadro com esta beleza. Inigualável natureza. Depois, o jardim.  As roseiras, as palmeiras, o cedro ao centro, a árvore enorme cujo o nome desconheço, a oliveira, demais arbustos e árvores baixas. As palmeiras, daquelas pequenas, com base larga que ramificam em várias, foram esta Primavera casa de muitos pardais. Os ninhos ainda lá estão. Já não mora lá ninguém. No cedro, ao centro, grande, manda um casal de rolas. Dizem que são africanas. Moram aqui há muito. Já lhes vi vários filhos. Foram à vida deles. Os melros bem tentaram ganhar este castelo, sem sucesso. Mas vêm aqui picar o chão ao fim do dia. Minhoca é o alimento. O macho é bonito. Preto luzente, bico laranja. É bom, tempo a pensar nisto, a ver, nada mais. Lembrei-me. Já temos orçamentos para a morte da árvore grande. Já chega a um terceiro andar. Pior, as folhas sempre em queda sujam o terraço vizinho, as raízes rompem o muro. Temos de matá-la. Infelizmente.

O jantar está no forno. A cigarrilha acabou, o vinho também. Já regresso. Será noite, acompanha café e um cognac. A visão é outra.

O silêncio, e o escuro, esconderam os bichos. A temperatura boa, embora já se note o Outono. O cognac aquece, mima. Agora que nada se vê, a cabeça foge apressada. Os últimos meses em catadupa. Boas sensações, rostos em flash rápido. Gentes novas que chegaram, algumas que já partiram. Tudo para o somatório. Chefe novo para a semana. Depois férias, a última semana do ano, por sinal. Alegria pueril, planos muitos, dias poucos. Chego a ti. Ainda tens mais planos. Avisei que desta vez não serei raptado. Um dia será nosso. Só nós. E mais umas refeições pelo meio. O romance, oxalá o bloqueio pare, urge avançar.

Pensei isto, e muito mais. É a varanda. Igual às demais, mas esta é minha. Dali vejo o mundo. O meu mundo, que só não é maior porque não deixo.

Big Band


Festival Internacional Caldas Nice Jazz 2016
7 Out. a 6 Nov.
The Glenn Miller Orchestra
28 Out.

Sempre houve em mim um fascínio pelas chamadas "Big Band". Nada normal na rapaziada da minha idade, que provavelmente nem sonham o que é uma "Big Band". Vou-me estrear ao vivo, e logo com uma das mais icónicas.

sábado, 1 de outubro de 2016

Mãe vê a juventude de hoje. Eu sei fui pior.

 
Trabalhar nunca me fez bem nenhum
Mas é melhor que ver o tempo a passar
Atrasado faço mais um
Ao menos vou gastar o tempo todo a cantar
Não paro enquanto ainda for
A tempo a tempestade virou costas ao mar
Por muito que eu não queria
De hoje não vai passar
Fecho-me em casa finjo que sou cantor
Ostento a tentativa de me levar a sério, mas
No fundo nada mais vai mudar
Eu canto a parolada tu só tens de aceitar
(la la la la laa)
Mãe eu só te quero lembrar
Até morrer no peito eu vou-te levar
Minha mãe eu só te quero lembrar
Até morrer no peito eu vou-te levar
(...)
Caladinho tu andaste a pastar
Por esta altura tinhas já o trunfo na mão
Adormeço sempre a equacionar
E durmo mal durmido a pensar nesta canção
Adio mais um dia
Perceber que aos 26 não posso mais empatar
Assumo o compromisso deixo as nuvens entrar
Morro na praia a 20 passos de ser
Um gajo formado, um gajo pronto a vingar
Mas no fundo, fundo tudo tem de mudar
Agora que eu não estudo não me vou mais calar
(la la la la laa)
Mãe eu só te quero lembrar
Até morrer no peito eu vou-te levar
Minha mãe eu só te quero lembrar
Até morrer no peito eu vou-te levar
(la la la la laa)
(ah ah ah ah ah ah)
 
Morro na praia, Capitão Fausto