"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

sábado, 10 de setembro de 2016

Ainda faltava vir o mundo.

Recordo as tardes longas no Jardim. Passamos lá horas de ternura sem fim. Tão novos e com sede de mais. Ainda faltava vir o mundo. Havia cheiro de jasmim e alecrim. A relva era a nossa cama. Silêncio total, só os olhos a falar. O mundo parava de girar. Como eu gostava de te olhar. A minha mão debaixo da tua roupa. Fazia desenhos imaginários nas tuas costas. E o olhar sempre fixo em ti. O teu rosto bastava. Ainda faltava vir o mundo. Os lábios caminhavam lentamente ao encontro que selava o momento. O mundo continuava sem girar. Havia tanto carinho nos teus lábios. Nos meus a paixão de quem queria mais. Ainda faltava vir o mundo. Dias houve que de mão dada, olhávamos o céu azul puro. Faziamos planos em conspiração contra o futuro, na inocência própria da idade. O mundo parava de girar à força dos nossos desejos. Ainda faltava vir o mundo.

Mal eu sabia que estes meses me marcariam como ferro quente. Mal eu sabia que a ferida que fizeste sangraria o resto da minha vida. O mundo veio, e levou-te. Guardarei para sempre as tardes no Jardim, junto à ferida que deixaste.

5 comentários:

  1. Sabes Laura de todas as imaginações e ficções que tenho escrito, esta é de longe a mais perto da realidade pura. Trata-se de uma adolescência, que nestes meses foi mesmo assim. E foi bom recordar esses dias.

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  2. Muito obrigado. Grande elogio.
    Aqui no blog estou em crer que o que faz sentido para mim são micro histórias, episódios, onde as frases curtas funcionam. Quanto às histórias em si... bom aí deixo sem dúvida ao vosso critério :) não serei juiz em causa própria.
    Sem dúvida um muito obrigado.

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  3. O mundo, às vezes, é um granda FDP...

    :)

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