"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vício bom

Infelizmente, para mim, nos últimos dias parece que não há o que escrever.
Apetece, o vício está lá. Fica tudo parado, o romance, o blog, tudo e a cabeça também.

Felizmente há o vício bom. É vir por aqui ler-vos, buscar conforto nas vossas palavras, nas vossas vidas, e descobrir.

Descobri recentemente mais alegrias. Os blogs são uma delícia. Falo de "de dentro para fora", "À Esquina da Tecla", "Cinco Quartos de Laranja" e ontem do "A Nossa Travessa". Consolos para alma.

Depois ando atarefado. Pensei, no exemplo da Isabel Pires, em oferecer poemas a esta tropa fandanga. Parece fácil? Não é, tem de ser na exacta proporção em que vos leio. Já tenho poemas para três.

Nestes dias, que por ciúme, eu diria infantil, fugiste de mim, procurei-te na televisão e no google. Vi-te, mas continuavas longe.

Finalmente, hoje pelo almoço, o bip bip que queria ouvir. A tua mensagem. Não há desculpas a pedir. É avançar, só. Conversarmos? Claro, muito. Ainda vai haver muito de bom.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Escolheram um poema para mim


"Devias estar aqui rente aos meus lábios"
Eugénio de Andrade 

Obrigado
Bela prenda
que acenta
aqui tão bem
Oferecer ou dedicar
um poema é
um belíssimo gesto
Obrigado



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Onde está a mulher

Onde está a mulher
a quem eu disse que não amava, mas que ia lutar por mim e ganhar.
Onde está a mulher
a quem eu disse que podia ter um qualquer e me disse que me queria a mim, que eu não era qualquer.
Onde está a mulher
a quem eu disse que estou a adorar descobrir para lá da maquilhagem e da linda figura pública.
Onde está a mulher
a quem eu disse que o melhor estava a ser descobrir a sua força e garra contagiantes.
Onde está a mulher
a quem eu disse que tudo ia fazer por te amar, e depois iríamos arrumar as nossas vidas.
Onde está a mulher
que me raptou por dois dias, numa demonstração de loucura e amor.
Onde está a mulher
que me enche de carinho, e me mima a cada gesto.

Onde está a mulher
que me beijou.

Onde está a mulher
que me ama.

Onde está a mulher
que dançou o tango comigo.

Não desistas já de mim.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Million dollar question

Já me tinha interrogado. Por mais que a uma vez pensei que ias fazer a pergunta. Honestamente nunca pensei na resposta, para ti. Não te zangues, por favor.

"Passados todos estes anos, se ela voltasse, ficavas com ela?"

Million dollar question.

Menos um dia...

Estou cansado de palavras e frases.
Estou cansado de anglicismos.
Estou cansado que é difícil escrever.

Nestes dias o bom é ler outros, não dá.
Nestes dias falta clareza.
Nestes dias não aproveito.

O dia passou e é tão vazio como zero.
O dia passou e não volta.
O dia passou e nem uma ideia.

Vida menos um dia... literalmente.

Assertivo, resiliente, resultado, objectivo, entregar, percentagem, trabalho, decisões, falhar e manipular.

Core, rating, briefing, business, debriefing, performance, meetings, year to date, trade e points.

Grau de Realização de Objectivo, also known as, GRO.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Música nova



Varanda Suspensa, Céu, Álbum Tropix 
 
 
Branko & Mayra Andrade, Reserva Pra Dois
 
 
Badbadnotgood,  Time Moves Slow feat. Sam Herring
 

Enjoy :)

Choro

Acordei com o teu choro.
Nessa tarde, adormeci no teu regaço.
Era um conforto, e acordei preocupado. 
Seria o princípio do fim?
Ninguém chora por chorar, ou ri por rir.
Perguntei.
Sem resposta, recebi um abraço.
Enxuguei as tuas lágrimas.
Continuei sem respostas.
Seria o princípio do fim?
Seria o fim outra vez.
Depois das tardes no Jardim, fugiste.
Anos mais tarde reencontro.
Voltamos a partilhar a cama.
Voltei ao teu colo.
Essas lágrimas, eram o teu medo.
O teu medo que agora fosse eu a fugir.
Era mesmo o princípio do fim.
Porque eu fugi.
Antes não o fizesse.
Agora sou eu que choro.
Choro enquanto outras dormem.

domingo, 25 de setembro de 2016

A Festa

Tudo isto sou eu a fazer um esforço de agradar. Quem gosta de receber tem de dar. Assim seja.

Na quarta-feira passada ao telefone:
- Olha sábado ao fim do dia tenho uma festa. - disse ela a medo.
- Que bom. Festas é sempre bom. Ao fim do dia?
- Gostava que fosses a minha companhia.
- Epá... eu e os teus amigos... Sabes bem
que não tenho paciência.
- Oh vá lá fazeres-me a vontade de vez em quando não te fazia mal, não nos fazia mal...
- Vou pensar. Mas ao fim do dia?
- Sim é uma rooftop sunset party!
- Pois... vou pensar.

Na sexta-feira passada ao telefone:
- Estou a contar contigo amanhã. - disse ela
- Sim eu vou. Chego a Lisboa pelas 18h.
- Uau eu já sabia. És lindo. Trás umas calças de sarja e uma camisa. E se calhar um blazer.
- O quê? Eu não digo que não tenho paciência... aí aí.

E lá fui no sábado. Com pouca vontade, mas cheio de vontade de agradar. Claro que fui perdendo a vontade aos poucos... Afinal a festa era num hotel na Liberdade.
- Ouve lá não era uma festa de amigos? Pensei que era na casa de alguém.
- Sim são amigos.  Mas é patrocinada por uma marca. E tem calma pelas 21h30m estamos despachados para irmos jantar.
- O quê? Não dão jantar? Aviso já, não quero fotos! Já fui enganado... Vens trabalhar?
- Pareces um velho rabugento. Acalma-te. Olha estás muito bem.
- Tu também... tu também...

Fila para entrar! Claro! Dois fotógrafos e um painel gigante com a dita marca. Quando cheguei próximo, saí da fila, passei por detrás dos fotógrafos. Um ainda olhou para mim. Eu disse: "companheiro só vim servir bebidas." E escapuli-me. Ela ficou e tirou a foto dela. Caminhei em direcção ao bar.  Escolhi uma ponta, a mais distante. Assim, podia admirar todo o terraço e respectiva fauna e flora. Sentei-me. O barman estava estava atarefado. Tinha uma caixa de especiarias de fazer inveja a qualquer indiano. Vários copos de tamanhos e formas distintas. Aparentemente só preparava gin's. Coisa da moda ao que parece.

- Amigo quero um Bushmills com gelo, em copo baixo, se faz favor.
- Isso é whiskey?
- Pois claro, amigo.
- Não quer provar um gin? Preparo-lhe um Hendrick's com pepino e pétalas de rosa, leva schwepps original premium.
- Amigo o Bushmills por favor. - Contendo uma enorme gargalhada.

O tipo demorou a encontrar a garrafa. Mas lá serviu. E arranjou um copo baixo. A dita fauna e flora, enfim merecem um post só por si. Agora a vista, do dito rooftop, era divina. Lisboa com as suas cores únicas. Belíssimo fim de dia. Outro post, sem dúvida.

Uma boa meia hora depois a minha companhia lá me encontrou.  Eu já a tinha visto a distribuir beijinhos e sorrisos. A trabalhar também. Gostei de ver o olhar de alguns homens quando se afastava. Estava na hora de eu circular um pouco também. Não há bela sem senão. E neste caso é literal.
- Vais ficar aí toda a festa?
- Não.
- Anda lá. Estão ali duas bloggers famosīssimas. Quero apresentar-te.
- Ouve! Nem te atrevas a dizer que gosto de escrever. Ouve...
- Anda rabugento.

Bom... as senhoras escrever não escrevem. São ambas patrocinadas pela marca. Não fixei. Se era maquilhagem ou lingerie, não sei. As senhoras têm um negócio, e não um blog. E vivem disso. E não digo mais. Não vale a pena...

O tempo passou... fiquei com a ideia de que pagam a pessoas famosas para ir a estas festas. A música não era má.

Ainda fui a tempo de ouvir uma espécie de elogio. Uma senhora, já era uma senhora. No bar, em mais uma pausa. Bonita, cabelo negro, cheia de charme. Sorriu quando pedi o meu whiskey. Ela pediu vodka laranja. Nada de gin's. Pareceu-me bem.
- Olha ao menos não bebes gin's coloridos, e não tens barba.

Virou costas. Nem respondi. Não me deu tempo. Uma senhora, sem dúvida.

Bom na hora certa fugimos dali.

E tu? Numa palavra: deslumbrante. Numa festa de gente bonita era para ti que os meus olhos fugiam. Nunca pensei na vida partilhar tempo e espaço com uma muher como tu. O caminho é longo. Por muitas razões que não são daqui. És...

O jantar a seguir e o resto é só nosso.

sábado, 24 de setembro de 2016

Serviço público de obrigado

Uma pessoa fecha a vida. Dias passam, anos passam. Calamos sonhos, não acalentamos expectativas. Sono profundo de olhos abertos. É uma letargia que nos violenta sem dor.

Depois há um bafo de sorte. Uma espécie de epifania. Há os amigos. São eles o fio condutor.

Obrigado amigo J.
Há 25 anos que estás cá. Nunca falhas. Sempre com sabedoria na hora certa. Sabes ouvir e sabes aconselhar, com calma e sem ferir. Sabes levar a água ao teu moinho como ninguém.

Obrigado amigo D.
Há 15 anos que estás cá. És a minha voz da razão. Consegues argumentar e contrariar tudo o que digo. Mostras-me sempre caminhos alternativos, perspectivas que nem eu sabia. "Liberta a vida da palma da tua mão", estou a tentar.

Obrigado amiga M.
Bom... tu foste se calhar o grande click. Sem saberes. A tua sensibilidade e bom gosto de letras e músicas puseram-me na rota certa. O teu exemplo fez-me ver ao espelho. Se voltei a escrever a ti o devo. És a pessoa aquém mais vezes pedi desculpa nos últimos anos. Falta de jeito meu. Que o teu rapaz te trate bem. Se tudo correr bem entrarás numa das fases mais felizes da tua vida. Não percas a tua sensibilidade às coisas boas. Daqui por uns anos faço um livro com a nossa história.

Obrigado amigo M. e amiga M. Trabalhar textos e experiências contigo é muito gratificante. Tens-te revelado amigo. És um fantástico escritor da vida dos outros e um músico de eleição. Amiga M. estamos numa grande caminhada e vamos continuar. Espero que resulte, espero não te desiludir.

Tudo isto porque fui correr de manhã cedo. Ao nascer do sol senti-me feliz pelas mudanças que tenho feito. E lembrei-me que sem vocês não acontecia.

Não é uma definição de amizade. Mas é um excelente exemplo.

Obrigado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Bar.



Só vou ao Bar quando preciso. Funciona como um mimo, um conforto. Isto é, não é uma base diária. Acompanha um café e o Bushmills com gelo. É o da foto. Há vários tipos de copo, já sabem só bebo neste tipo. Não preciso de pedir, é-me servido. Todos os barmans sabem o meu nome e gosto pessoal. A música de fundo é boa, jazz, bossa, chill out (?). Digamos que acompanha a baixa luz, conferindo traquilidade. Poucos clientes, sempre os mesmos.

Vou lá por dois motivos. Em primeiro, por relaxamento puro. Sem pressão. Vejo o fumo da cigarrilha voar, saborei-o o whiskey. Em segundo, porque facilmente encontro clientes com quem se faz boa conversa banal. Em última análise ajuda-me relaxar a trivialidade dos temas.

Ontem, nuns breves minutos lembrei-me de ti (como vês já estás cá dentro), de ti não, de uma situação nossa, de ti são muitas vezes ao dia. A mirar o fumo, no meio de um travo de malte. Passou aquela música. Sim, a nossa. Não pedi, o barman também gosta.

Recordei o dia em que fizeste dezenas de quilómetros de noite só para me veres. Parei o carro junto ao teu no sítio combinado. Saí. Ligaste o cd do teu carro. Saíste do teu carro. Quando cheguei ao pé de ti, nem boa noite disseste. Com todo o charme do mundo:

- Dança comigo - disseste

- Não - respondi eu

Enfim... desculpa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Escrutínio. Escuridão. Sinopse.

Até era para ser um dia difícil. Mas não. Meio da tarde e já vi que não foi. Mais, até anseio o que falta deste dia.

Objectivo do dia escrutinar em números. Não em letras. Só a frieza e arrogância dos números.

Minutos antes do escrutínio li:

Escuridão

Distraiu-se do fio da alegria
voltou a chorar
nas noites.


Quase sempre à noite
a linha, fraca, dá se si
enrola-se ao pescoço e aperta.


Partículas negras 
entram pela íris
e batem-lhe na alma.


Isabel Pires, Escuridão

Foi luz, foi céu azul. Foi o pensar que a beleza de um texto está aqui. Está, porque não sendo escrito para mim, parece que o foi. Encaixa em mim. É perfeito.

É triste, é. Mas escrito assim, é arrebatador. É de uma generosidade extrema. É triste, é, mas provocou-me calma e alegria.

No caderno, tomando notas, escrevi. A calma e alegria permitiram um escrutínio diferente. Escrevi a sipnose de um hipotético romance.

Sigam o link :)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O céu azul

O céu azul, puro, afaga-me
O whiskey com gelo, nas noites de pensar, nutre-me
Os textos de Pessoa, no silêncio, acarinham-me
A música, todo o dia, incentiva-me
O sonho, de outra vida, acalenta-me
O amar, platónico, ameniza-me
Os livros, que ainda não li, cultivam-me
O cansaço do exercício, de manhã, acalma-me
 
Tantas coisas, feitas, e por fazer,
Mas uma só chegava,
O teu abraço, um só,
afagava-me, e nutria-me,
acarinhava-me, e incentivava-me,
acalentava-me, e amenizava-me,
cultivava-me, e acalmava-me
 
Um só bastava, e ao invés,
tenho de enfrentar o mundo.

Desabafos de um dia cansado...

Irrita-me, e adoro (em simultâneo), que os meus pais me liguem a qualquer hora do dia para me contaram histórias do seu dia-a-dia de reformados, achando claro que eu a trabalhar tenho todo o tempo do mundo para as suas aventuras.

Não percebo a dificuldade económica de perceber que uma economia baseada em baixos salários gera mais desigualdade social e maior pobreza com o passar dos dias.

Tenho pena (mas não sincera) de terem "saído cá para fora" os Panama  Papers, e agora os Bahamas Leaks, e o meu nome não aparecer em nenhum.

Desabafos de quem está cansado...

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Imodéstia eu sei. I'm just... happy

Perdoem-me a imodéstia deste post. Desculpem a vaidade. Mas estou feliz.

[Olha gostava de escrever ao teu estilo. Não sei se vou conseguir.]... [Sei que não me amas. Vais amar, eu sei.]... [Perguntas porquê tu? Perguntas isso e dizes que posso ter qualquer homem. Eu respondo-te, porque não quero qualquer homem. Quero-te a ti, e tu não és qualquer.]...  [Tu quando amas uma mulher és diferente, eu sei. Tu amas uma mulher não pelo que todos vêem, que é o que está por fora. Tu amas uma mulher porque lhe amas a alma, o que está dentro, o que muitas vezes poucos ou nenhuns vêem.]... [De certeza que amas uma mulher pelas suas qualidades e pelos seus defeitos. Tu gostas da sedução, gostas de saber, mostras interesse, isso acontece pouco. Amas tudo e não só o que os olhos vêem. Eu sei tudo isto de ti, e é por isso que vou lutar por ti.]...[E tu danças tango.]... [...não se resiste.]

Estou feliz. Não posso ficar indiferente. Não, quando sou assim escrutinado. É bom, e raro.

Eu sei, acredito, que és mais do que mostras. Esta mensagem é isso mesmo.

O resto conto-te só a ti.

Obrigado

Ainda bem que chegas.

Não sei definir a cor do teu cabelo com o sol que bate. É bonito. Gostei do teu rosto sem maquilhagem. Continuas bela. Pestanas grandes fazem olhos vivos. Ainda bem que chegas. Se a mulher nasceu da costela de Adão, então, uma foi só para tu nasceres. És boa amante. Carinho é o teu nome. Sabes que preciso. Ainda bem que chegas.

O tempo juntos ajuda. Mais há-de vir. Ainda bem que chegas.

Mas o melhor é descobrir-te. O melhor não é seres uma obra perfeita da costela de Adão. O melhor é a tua força, a tua garra contagiante, o teu carinho. O melhor é o que pensas e dizes. Estamos na descoberta. Estamos felizes. Não há compromissos nem regras. É bom. Está a nascer. Estou feliz a conhecer-te. Não vou contar o que esses olhos contam. Tenho vergonha.

Ainda bem que chegas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Malasaña


A viagem era curta. Muito curta. Madrid tem vida, mas o meu tempo está dobrado à força dos ponteiros que rodam. A minha guia tratou de tudo. Hostel no bairro mais alternativo de Madrid, Malasaña. A Chueca, também, mas eu podia ter algum ataque homofóbico. A minha guia tratou de tudo. Ambiente bem ao meu gosto, nocturno claro, e de dia, esplanada e praças, e praças e esplanadas. A minha guia tratou de tudo. Tenho que mencionar, a Calle Espiritu Santo, pelos restaurantes e bares, e lojinhas. A Plaza del Los de Mayo, onde se dança tango, onde a sensualidade e a paixão nascem só de ver. Dancei. A minha guia tratou de tudo.

Não paras de me surpreender.

Isto promete.

Obrigado.


Da aldeia, pois claro!

Ao fim a 21 anos reencontrei a única namorada de aldeia que tive. Foi preciso eu ser pai de um miúdo fantástico para a reencontrar. Futebol de crianças, sábado de manhã. Está bem melhor que eu. Em termos de cara. Cabelo loiro e carinha de boneca de porcelana. Lembro-me bem do marido, aliás até o vejo com alguma frequência. Bom homem, tem um bom posto nos Correios, ao que parece. Já era meu conhecido antes da dita loira. Aliás, num gesto bonito recordo o dia em veio à minha beira e me perguntou se eu levava a mal ele namorar a dita loira. "Não!" O que lá vai lá vai. Namoraram e casaram. Tem um filho lindo, loirinho. O meu filho goleou, 8-2 ao que parece.

"Olá estás bom?" - bem amarelo foi o que levei. Notei desconforto. Eu também. Normal, sem dúvida.

Pese embora estar igual de cara. Há mais coisas iguais. Mantém o mesmo ar.  Não engana, é da aldeia. Como não foi para fora, vive na mesma aldeia, há sempre qualquer coisa que a denúncia.

Moro numa cidade pequena. Desde pequeno, na escola, que identificamos com facilidade quem era ou não da aldeia. Há sempre algo que o deixa claro. Não se explica.

Recordo que nos anos que vivi em Lisboa, esta noção era mais difusa. Não era claro. Até porque em Lisboa há muita boa gente que veio de uma qualquer aldeia deste país. Processo normal.

Não há nada de discriminatório. É o que é. E aquela loira bonita é da aldeia. Da aldeia será. Feliz espero.

Gosto sempre de rever rostos do passado.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Múltiplo ou somatório

A pensar ao som da estrada:

Este que escreve é múltiplo, ou,
É somatório. Dúvidas? Todas.
Este que escreve é onde habitam seres.
Vários. Estranhos. Ou é a soma,
A compilação de todos eles.
Mas quantos são? São quatro se todos separados. Se cada um for um.
Mas pode ser um que é tudo e nada
De outros três.
Confusão. Talvez. Depende como olhas.
É bom divagar devagar
Sobre nós próprios.
A viagem é longa.
Analisas todos ao ínfimo pormenor.

O conta corrente. Urge dar nome ao homem. É artista. Escritor e leitor. Canta. Gosta de jazz e blues, e demais variações. Dado como morto em guerras ferozes. Está vivo. Com força e ávido. Romântico e sentimental. Apaixonado por mulheres de cabelo negro e olhos azuis. Tem medo de olhos verdes. Lê os olhos das mulheres como ninguém. Lembra-se de todos os momentos de amor.  Adora amar várias em platônico amor. Dança o tango.

Outro. Calculista e inteligente. Metódico e minucioso. É mais novo. Nascido da necessidade. Conhecedor de aguardentes velhas e bons vinhos. Tintos claro. Humor fino. Amante da alta cozinha. Elitista. Despreza a ignorância e a pouca cultura.  Minimiza as pessoas. Confere rótulos. Odeia mundos pequenos de ideias e espaço físico. Detesta banalidades. Político. Gélido. Sem amigos conhecidos. Manipulador.

Outro. Tal e qual o frágil do Palma. Embarca em banalidades e gosta de whiskey de malte. Bebe cerveja e vinho barato. Fala de futebol. Ri e faz rir. Perde horas ao fogão. Prefere comida típica portuguesa. Sabe dançar em casamentos e bailaricos de verão. Tem centenas de conhecidos. Conversa fácil. Gosta de ajudar. Gosta de música punk rock and roll e alternativa no geral.

Calma, não há aqui esquizofrenia, nem distúrbio de personalidade. É só uma constatação.

O que escreve é o somatório destes três? O que escreve é outro para além destas três almas?

Não é grave. Todos somos o que somos.

Somos a soma de todos que a vida forjou em nós.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Almoço contigo

Acabaste o almoço a dizer que daria um post. Aqui está, é  para ti. Nada direi que não te tenha dito a ti. Talvez não. No final veremos.

Verguei-me à tua insistência. Aceitei o convite. Lá aproveitei as minhas férias para ir a Lisboa ver-te.
Escolheste bem. Restaurante de chef consagrado,  e estrela michelin.  Sabes que adoro comida, sabes que sou conquistável pelo palato. Jogaste bem. Mais prendas. Sei que gostas de dar. Obrigado.

Avançaste rápido. "Como está a decorrer o teu plano familiar?" Respondi: "De acordo com o plano, por isso estou aqui." Ficaste feliz, o brilho nos olhos não engana. Era a resposta que querias ouvir.

Tu és figura pública. És apresentadora de TV. Menina do lifestyle e da moda. Uma das mulheres mais lindas de Portugal. Charmosa, bela, de linhas perfeitas(sem exageros de ginásio), cabelo negro, rosto de deusa grega, perfeita portanto. Sou homem, não sou cego. Sei que és bem mais que essa imagem.

Podes ter qualquer homem. Porquê eu? Porquê essa tua persistência? Sou banal. Sou normal. Sabes que fugi de Lisboa por isso mesmo. Cansado de beldades vazias, social inócuo e nocivo. Sim, sabes que essa não foi a principal razão. Isso sabes. A razão principal da fuga de Lisboa, não sabes. Mas insistes em mim.

Hoje gostei. Finalmente percebeste. Almoço sem forçar ambientes íntimos. Só conversar, explicar sem rodeios. Queres que fique junto a ti. Eu não te amo. Nem te conheço como acho que preciso. Tu estás determinada. Eu não tenho tempo para aventuras. Deste-me a mão.  Eu fugi. Voltei mais tarde. A tua mão estava lá. Vais insistir. E eu vou rejeitar? Não sei. Não há promessas, prometemos. Como és bela.

Passeio pela Baixa e Liberdade. Esplanada perfeita e discreta. És bela. Os olhos dos homens mentem menos que os das mulheres. Eu vi. És reconhecida. Logo eu que quero anonimato.

Pergunta armadilhada. "Amas alguém?". Respondi prontamente: "Não." Irreconhecível como mentiroso. "Quantas que não eu?". Engoli em seco, não te queria magoar, "Duas".

"Vou lutar por ti e vou ganhar."

Venham de lá essas espadas de insultos. Uma mulher linda, linda a sério, e aqui o... enfim eu, fico sem palavras.

Ainda está semana te vou voltar a ver.

Sou homem. Não sou cego. A tua persistência merece um prémio.

Beijo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Acontece

Às vezes acontece.
Pessoa que quase do nada aparece nas nossas vidas.
Sem pedir licença faz mudar.
Pessoa que marca.
Que nos vê o todo.
Diz que somos pessoas de valor.
Diz, com carinho, que afinal também somos especiais.
E isto é raro, cada vez mais.
Já ninguém vê.
Já ninguém quer saber.
Quando te acontecer diz obrigado. Procura alguém para fazeres o mesmo.

N.A: coisa perfeitamente normal e banal de se ler em qualquer blog de lifestyle ou de moda.

domingo, 11 de setembro de 2016

Qual das vidas?

Razão ou coração? Concentração ou paixão? Equilíbrio ou desequilíbrio?
Como é que se mede e pesa isto na balança da vida?

Nem Fernando Pessoa sabe... que poema fantástico.

Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 
Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 
Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

sábado, 10 de setembro de 2016

Ainda faltava vir o mundo.

Recordo as tardes longas no Jardim. Passamos lá horas de ternura sem fim. Tão novos e com sede de mais. Ainda faltava vir o mundo. Havia cheiro de jasmim e alecrim. A relva era a nossa cama. Silêncio total, só os olhos a falar. O mundo parava de girar. Como eu gostava de te olhar. A minha mão debaixo da tua roupa. Fazia desenhos imaginários nas tuas costas. E o olhar sempre fixo em ti. O teu rosto bastava. Ainda faltava vir o mundo. Os lábios caminhavam lentamente ao encontro que selava o momento. O mundo continuava sem girar. Havia tanto carinho nos teus lábios. Nos meus a paixão de quem queria mais. Ainda faltava vir o mundo. Dias houve que de mão dada, olhávamos o céu azul puro. Faziamos planos em conspiração contra o futuro, na inocência própria da idade. O mundo parava de girar à força dos nossos desejos. Ainda faltava vir o mundo.

Mal eu sabia que estes meses me marcariam como ferro quente. Mal eu sabia que a ferida que fizeste sangraria o resto da minha vida. O mundo veio, e levou-te. Guardarei para sempre as tardes no Jardim, junto à ferida que deixaste.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mais uma carta que não seguiu.

Até começou como carta. Mas como muitas outras não seguiu. Acabou numa discussão interior. Foram tantas que não seguiram.  Esta segue hoje incompleta, como eu sou sempre. É fantástico como esta cena da vida real se repete em mim.

Qualquer sítio, qualquer dia de qualquer mês de qualquer ano,

escrevo ao som das lágrimas que me caem. Só tu me fazes chorar. Só tu tens esse poder.
Fugiste de mim. Ou nunca cá estiveste? Já. Eu sei que sim. Há coisas que nem tu consegues esconder de mim. Eu sei que sim. Mas fugiste.
...

Ao espelho:
Dei-te tudo e nada prometi. Se calhar foi isso. Devia ter prometido? E tu prometeste? Não?
Porra estou triste. Nem em português há palavras que falem o que sinto.
Onde é que eu errei? Mostrei-te tudo. Achas que menti? Não. Era para sempre? Acho que sim.
Mas porque motivo sinto esta dor, é quase física, no coração?
Porra estou triste. Muito, mesmo.
E agora faço o quê? Amo-te sozinho, em silêncio durante a noite. Até quando? Será melhor fugir também? Se fugir não volto. Fico com a dor ou ela desaparece? Não creio.
Porque motivo estou a escrever te? Não te encontro.
Quando é que isto vai passar? Onde é que eu errei? Porquê a mim?
Porra já nem uma carta é.
É um monólogo de perguntas ao espelho.
Afinal faço o quê?
Porra.

N.A: para evitar comentários desnecessários, informo que é um texto que parte de uma realidade que foi um pouco imaginada e ficcionada. Mais, a carta não seguiu.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Isto do blog... o melhor é o que descobri

Isto ainda não tem um mês. Tem sido uma experiência enriquecedora. É tudo novo para mim, e de esfera tem pouco, talvez ainda muito quadrado, para mim.
Uso o blog para largar textos antigos, guardados nas calendas do telemóvel. Outros são de impulso, outros são o que são... imaginações e ficções muitas vezes, pensamentos e coisas boas.

Mas muito mais importante que aquilo que escrevo (e escrevo quase por necessidade), é aquilo que aqui encontrei até agora. Gentes interessantíssimas. Sim, vocês são mais alegres para mim, do que qualquer coisa que eu escreva só por necessidade quase física.

E descobri o quê?

Bom... temos um músico fantástico, que felizmente (e já que não vejo ao vivo) partilha as suas músicas. Excelente gosto musical e ouvido, bem acompanhado vocalmente segundo me apercebi, e belas letras (o Às Vezes... sabes...). Falo claro do C.N Gil e do seu blog ,brilhante. Obrigado.

Temos as divertidas, quase infantis, acutilantes e não sei mais que adjetivos pôr. A sarcástica Sara e o seu divertido blog , Maria João e o seu e agora? sei lá ambas me alegram o dia.

Depois também descobri um sótão do qual espero mais, que gosta de Ornatus, e é quase uma escritora oficial (pena de não ter contribuído Carla), da qual espero o livro "Um amor morto" com vontade. A Carla, uma rapariga simples , que adoro ler.

E claro, a enfermeira de serviço (será?) que se parece comigo tantas vezes, ou seja, nada de coisa nenhuma, a AC e o seu fantástico blog

Para o fim, duas senhoras que me enchem as medidas por assim dizer, que isto hoje está parco em vocabulário.

Descobri hoje num comentário que é escritora? Quais os livros? Onde os encontro? Falo claro de uma senhora que gosto de ler e saborear, muito. Será que nasceu mesmo na praia? uma das minhas melhores descobertas A Sra. D. Isabel Pires que nasceu ou quis nascer na praia

O melhor no final, uma senhora que é dona de um sitio de pequenas grandes coisas. Desde o dia dos "abraços intermitentes" me fez ler, e ainda bem, o blog todo. Só podia ser atriz, dramaturga e encenadora, só podia tamanha é a sensibilidade da sua escrita. Obrigado Laura Avelar Ferreira e o seu sitio das pequenas coisas.

Esta história ainda não tem um mês, e já não passo sem vos ler e procurar por vós diariamente. Já valeu apena. Obrigado.

Pôr e nascer

Acerca da demanda de fazer diferente.

Pôr do sol é amor, é apaixonado, é reflexão e espiritualidade. Fica inevitável a melancolia, é uma morte lenta do sol nas costas do oceano. Rima com acabar, terminar e encerrar. Tudo verbos pobres e de fim. Segue a noite.

Nascer do sol é amor, é apaixonado, é reflexão e espiritualidade. Fica inevitável a alegria, é a vida do novo sol nas costas da serra. Rima com  brotar, desabrochar e manar. Tudo verbos ricos e de princípio. Segue o dia.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lisboa

Soube bem a viagem de carro até Lisboa, A8 fora, fim de tarde perfeito. Música aos berros para eu berrar também. Sentimento de liberdade. Bom, muito bom. O João Ribas dos Censurados grita bem, e mais alto que eu. Nada mais inspirador para a noite que chegava, puro Rock and Roll Punk português dos inícios de 90. Não pensas em nada. Só cantas e aceleras. Nada mais.

Chegado a Lisboa, a viagem é curta, paragem rápida para um beijinho a uma amiga de longa data. Rápido mesmo.

Encontro marcado numa esplanada com outro amigo. É quase uma celebridade, músico de excelência, para mim um grande escritor da vida dos outros. Percebi que era reconhecido. Não foge a um autógrafo e uma selfie. Revela pouco à vontade.
Trocamos impressões, revemos textos. Pessoa inteligente, conversa boa. O ambiente está perfeito. Esplanada com um jazz e bossa nova de fundo, malta nova e cosmopolita. Pedem-se imperiais e garrafas de vinho. Yuppies e menos, falam alegremente. É a sexta-feira.

Segue-se jantar ali perto, com outros amigos. Na rua claro, que o tempo convida. Muita gente na rua, muitas caras novas e bonitas. Conversa a escorrer. Há histórias, política, diplomacia, Moçambique e Timor, família e projectos. Não nos víamos há 15 anos. Estamos todos iguais, e isso é bom.

A noite segue alta e acelerada. A rua da ceia já só é um mar de gente. Agora há bares e discotecas. Há vida em frenesim, há excitação e arrebatamento.

É esta a minha Lisboa. Rever gentes do passado, conhecer novas, e ver gentes bonitas numa cidade com tudo para dar.

A Lisboa que eu gosto, sem abusos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Grandes no que fazem

É comum ouvirmos dizer: "nasceu para aquilo". É mais habitual em artistas. Nasceu para cantar, escrever ou jogar à bola.

Este nasceu para ser médico. Acredito que a falta de notas está compensada numa enorme vocação, e gosto pelo que faz. Pessoa de empatia natural, calmo e afável. Este é grande.

Não há prazo para recaídas. Não se mede em anos. Enquanto cá andares estás exposto. Tem calma... não há nada de físico aí, só essa cabeça que adora viajar, por vezes para sítios errados.

Estás bem, muito bem mesmo, nunca tão bem em anos. Fazes exercício, lês e escreves. O que gostas. Estás ocupado, defesas altas, e assim será.
Vives e viverás uma vida que não és tu em pleno. Não há cura para isso. Portanto, vive assim.

Continua a amar os que amas. Pede desculpa aos que fizeste mal, mesmo sem explicações que não queres dar.

Vai lá que a porta está sempre aberta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Não existe

Não me faças grande
Não me endeusses
Não há um pedestal
Não me admires

Não me olhes
Não me respires
Não me cantes

Não te encostes
Não me dês a mão

Esse que tu vês não existe

domingo, 4 de setembro de 2016

Dia mau

Os sinais estavam lá todos. A excitação, os suores, a mão a tremer. Todos lá, e eu não vi.

Grande noite. Companhia perfeita, conversas perfeitas. O álcool corria, fluía, e fazia o seu papel. Não me lembro nem da hora nem do nome da discoteca. Dois pisos, música a transbordar. Ida breve ao banheiro. Ela aliciou-me. Nem me lembro da cara. Mas com ela tinha a magia, e quis partilhar. É aquela fracção de segundo. Digo sim. Saudades. Sensação tão boa. Euforia. Poder. Excitação. Bate rápido o coração.

Aguentei 21 anos. E mesmo assim cai na armadilha.
Quebrei uma promessa. Quebrei uma regra. Não me julguem. O que estava bom, ficou muito melhor.

O que doeu não foi a ressaca. São os dias seguintes. A alegria dá lugar à maldade. A excitação à tristeza. Não há noção de realidade. Instala-se o caos na cabeça. Cada conversa uma discussão. Há a necessidade de mais. Mas NÃO.

Aos que amo desculpem. Aos outros desculpem.

O doutor amigo acalmou-me. Segunda-feira lá estou.

Tudo estava tão bem. O exercício, o regresso à leitura, a escrita, tudo. Estava tudo controlado. Não estava.

Somos o que somos. Talvez fique mais forte. Não quero perder o que demorou anos a fazer.

Recomecemos. O teatro de personagens a desfilar. O mau feitio. As defesas bem alto. Foi assim que sobrevivi até aqui. Assim será. Falhei. Sim. Voltarei mais forte.

Pago caro o passado. É assim. É o preço a pagar.

Hoje estou melhor. É só manter a cabeça ocupada. Parece fácil. Há balizas.

Lembrei-me que todos os outros morreram. Nos próximos dias será assim. Os momentos a só são para chorar. Vai passar. O tempo joga do meu lado.

Não é fácil. Recomeço cansado.

É a vida que nos faz.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Setembro das promessas

Gosto de esplanadas,  de ver quem está e passa sem estar a ver. É a hora das memórias. Sabe bem. O passado será sempre, o meu presente, e parte do meu futuro.

"E já chegou o Setembro." - atira a dona da esplanada a piscar-me o olho, enquanto serve o café.

Setembro será sempre o mês das promessas. Faz 12 anos que me encheste a cabeça delas.

Quem ama acredita. Quem ama anseia as promessas do outro. Será sempre assim.

"Vou tratar de tudo. Depois seremos só nós dois para sempre.". A maior de todas as promessas. A promessa de felicidade eterna.

Mas quem ama não vê mentira. Quem ama é cego.

Em Outubro faz 12 anos que fugi daí. 12 anos que não te vejo. 12 anos em que não acredito em promessas, e não as faço. 12 anos em que não passa um dia em que algo, ou alguém, não me faça lembrar de ti. Até um simples "e já chegou Setembro".

É a vida que nos faz.
Apreendemos a viver com essa regra.

Ontem foi isto. Hoje não sei. Amanhã logo se vê.

E porque não há coincidências, ontem ao fim do dia alguém me dizia:
"Não gosto de promessas... não gosto porque passei anos a ouvir palavras lindas que o vento levou. Não posso prometer nada a ninguém... a não ser a mim própria."
E eu não sei!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

História de uma relação Parte 2

Resolveste escrever-me. Desta vez não era para falares do teu mundo. Desta vez eras tu a sair da tua zona de conforto. Desta vez não era uma inércia. Escreveste para falar de "nós". Não era inércia. Tu ao fim de todos estes meses a escreveres sobre "nós", passaram meses, meses, e agora pensas em "nós". E agora escreves que "nós" seríamos perfeitos eventualmente. Que sonhaste tu e eu. Agora.

Disse te que ia pensar. E pensei. Neste caso, era voltar a pensar. Pesei razões e o coração. Revivi. Mas o que eu queria mesmo saber era se tu ias fazer alguma coisa. Saber se a tua inércia de tudo, e sobre "nós" ia mudar. Pressionei. Sim é verdade. Mas tu nada. Ias escrever-me sobre os teus medos em relação a "nós". Houve um filme e até hoje sobre os teus medos nada... Pressionei. Não dizias tu, disse-te eu as minhas razões e o meu coração.

Das minhas razões, para o "nós" não ser nada, disse que eras inerte. Que me mentes ou omites coisas com medo da minha opinião. Que só queres o conforto da minha companhia, não quando eu quero, só quando te apetece. Que vales pouco, só deixas passar o tempo, não ages por nada. Não largas a tua zona de conforto. Vais te bastar a um mundo pequeno,  o teu, a tua história será banal e igual a tantas outras.

Do meu coração disse que éramos perfeitos, que há anos que não encontrava uma pessoa assim, que só um sonho nos poderia retratar. Disse que adorava os teus olhos, que gostava de ficar só a olhar para ti, de te abraçar, que te daria todo o carinho do mundo. Que iriamos cozinhar, dançar e viajar juntos. Íamos partilhar a manta no sofá.

A vida é curta. A minha é mais.

"Neste momento não consigo visualizar-me nessa luta... apesar de todos os sentimentos..."

Daí para a frente ainda perguntei porque me tinhas escrito sobre "nós":
-Para dizer o que penso.
-Pensas isso muito bem. E depois.
-Tudo igual. Mais do mesmo.

Discussão... discussão...

Ainda atiraste: "se queres algo concreto agora". Interrompi e disse que não. Já não queria, e expliquei que isso foi no passado. Agora só queria mesmo perceber se ias fazer algo diferente. Só isso, e se sim, talvez o meu coração voltasse a pensar igual ao passado.

"Já percebi" e "Mais uma vez desiludido" ainda disseste.

E é isto.

Espero que no teu mundo, esse teu outro, sobre o qual mentes e omites, te possa dar mais do que eu.

Sou um homem temporariamente só, o que significa que há partidas e regressos. A vida é curta, a minha é mais. Vou-te escrever para te dizer que como teu único amigo aqui estarei quando quiseres conselho e partilhar. Quanto ao "nós" quando quiseres, no teu tempo, e se for para ser diferente, sem inércia, cá estarei como homem temporariamente só.

História de uma relação Parte 1

A propósito desta relação, volto sempre, desde há 20 anos para cá, aos Homens Temporariamente Sós dos GNR. Gosto da música, e a letra faz tanto sentido em mim. Prometo não falar de amor de gostar e sentir / Portanto não vou rimar com dor um mentir / Joga-se pelo prazer de jogar e até perder. Os Homens Temporariamente Sós serão sempre umas cabeças no ar e preferem perder diz a letra. Eu diria sempre desfasados,  sempre fora de tempo, nas relações. Mas pouco importa, há Partidas regressos conquistas a fazer, porque sem dúvida são bolas de ténis no ar.

Não foi quando te conheci. Foi quando olhei os teus olhos. Descobri um ser frágil, carente e triste. Não descansei, enquanto ao meu jeito, não descobri mais. Demorou meses, que os teus muros são altos de se escalar. Em simultâneo fui baixando os meus. Afinal qualquer relação é dar e receber. Descobri que a tua dor era igual à minha. Tão só uma relação do passado que teimava estar viva todos os dias. E se isso dói. Vi-me ao espelho. Não gostei. Eu era assim? Fui mudando, e mudei, não gostei de me ver em ti. Mudei.

Mas descobri uma pessoa fantástica. Na perfeição encaixavas em mim. Tinha encontrado o que tanto procurava. Não te disse nada. Nem valia a pena, tu estavas no teu mundo de pensamentos. Se hoje era difícil, há época as condicionantes das nossas vidas eram crivos apertados. Não te amei é verdade, mas sem dúvida que me apaixonei.

Tu estavas no teu mundo, naquele onde gostas de estar, e de nada fazer. Os dias foram passando. Fui percebo, com calma, que eras só um sonho bonito. Mas mesmo sem paixão, gostava de ti pela pessoa que eras. Quis ser teu amigo. Nem disso soubeste cuidar. Quis ser teu amigo e mostrar-te que podias fazer qualquer coisa por ti, que não fosse só o estar e o nada fazer.

Passou a paixão, a amizade era difícil, vergada à tua inércia. Pela velocidade dos dias fui me afastando. Eu mudado, a ver mundo com outros olhos. A querer fazer tantas coisas na minha vida pessoal, a organizar-me, a traçar planos e metas. A vida é curta, a minha é curta. Tanta gente para conhecer, tanto para ler, tanto para escrever. Tu continuaste no teu mundo, a ver e a nada fazer. Continuei a mostrar-te como estava o meu caminho, ideias e planos, cada vez menos ao sabor dos dias que iam passando. Sobre o teu caminho fui-me desligando suavemente, fui deixando de ler os teus olhos...
Chegados aqui o vazio estava perto. Eras cada vez mais uma boa recordação. Eras cada vez mais neblina e menos sol. Continuavas no teu mundo, a ver e a nada fazer. Essa atitude, quase de desprezo, foi acelerando tudo.

Continua já a seguir...