"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Medo


 
Chovia muito. A rua estava iluminada pelos relâmpagos ferozes, a luz dos candeeiros era pobre, quase invisível à força de tanta chuva. Debaixo de um alpendre, de um lado da rua, Ela olhava para Ele. Do outro lado da rua, debaixo da ombreira de uma porta, Ele olhava para Ela. Os seus olhares cruzavam-se para além da chuva. Trespassavam a água. Era como se estivessem colados, quase a tocarem-se. Passaram 10 minutos. Começou a cair granizo. Nenhum tinha coragem de ir ter com o outro. O medo da chuva forte , dos trovões que gritavam, dos relâmpagos que faziam parecer dia e o granizo pesado, não os deixavam caminhar um de encontro ao outro. Ele acendeu um cigarro, Ela olhou para o telemóvel, queriam fugir ao olhar que ia para além da tempestade. Logo retomaram o olhar. Seria hoje que o medo da tempestade ia fugir dos seus corações? Seria hoje que iam caminhar um para o outro? Aquela tempestade perfeita era a dor que ambos tinham dentro dos corações. Guardada bem no fundo dos seus corações e almas, aquela dor era a tempestade que aparecia quando nas suas vidas apareciam dias de sol quente. E Ela e Ele tinham tanto medo da dor, viviam debaixo da ombreira e do alpendre para se esconderem das suas tempestades, das suas dores. E agora debaixo da ombreira Ele não queria sair e enfrentar de frente a sua dor. Foram anos e anos de violência a si próprio, numa paixão única que quase o matou. Não morreu, mas jamais a dor e a tempestade que quase o matou o deixariam sair da ombreira da porta, era o seu castelo de defesa à dor da vida. E agora debaixo do alpendre Ela não queria sair e enfrentar de frente a sua dor. Foram anos e anos de rejeição, anos e anos de entrega total a amores perfeitos, e todos Eles a trocaram como se o coração dela não fosse real. Deste desprezo e indiferença nasceu o alpendre que a protegia das tempestades. Daqui nasceu pedra que nem deixava ouvir o seu coração bater. Quis quem manda que hoje podiam atravessar juntos as suas tempestades. A Vida tinha os colocado na mesma rua, frente a frente. Há já vários meses que se olhavam, que se desejavam. Mas as ombreiras e alpendres, os medos, as dores e as tempestades não deixavam que atravesassem a rua. Mas seria hoje? Logo hoje que o céu ameaçava cair sobre eles. Quis quem manda que sim, afinal na vida tudo acontece por um motivo. Se quem manda os tinha posto assim, frente a frente na mesma rua, por alguma razão seria. Mas quem dará o primeiro passo em direcção ao outro? Será Ele ou Ela? Na claridade cega de mais um relâmpago os olhos de desejo dele e dela disseram avança, encontro-te a meio caminho. Em simultâneo deram o primeiro passo para a chuva e granizo, sem medo, confiantes. Em segundos eternos o medo e dor eram passado. Agora só queriam caminhar. A meio encontraram-se, deram as mãos. Ele contemplou mais uma vez aquele rosto de anjo que há meses observava. Rosto molhado pela chuva e rejeições da vida. Ela aproximou os seus lábios dele. Antes de o beijar, disse-lhe: Quero-te.

6 comentários:

  1. É bom quando o medo não leva a dele avante. :)

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    1. Infelizmente leva... esta ficção está muito idílica. Mas sim é bom, é muito bom superar o Medo :)

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    2. Como se diz na minha terra: nem sempre, nem nunca. :)

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    3. Oh Carla onde compro "Um amor morto" estou deveras curioso ;)

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    4. Agora só dá quando ele sair. Acho que falta pouco. :)

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  2. Muito bom!
    Que o medo seja derrubado!

    :)

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