"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Gesto mimado e à palma da tua mão

Por duas vezes, por culpa própria, estive a caminho da terra da verdade. Quer dizer, três vezes, que uma doença na infância também conta, só que não foi por culpa própria. Não faz muito tempo que me dei conta desta realidade. Isto criou em mim um sentimento estranho. Deixei de compreender a maioria das pessoas. Pessoas que têm tudo, mas estão fechados num mundo pequeno em ideias, em quilómetros quadrados, em vontade de mudar. Detesto as mesmas receitas para os mesmos problezinhos. É tudo uma espiral sem sentido, com epicentro no umbigo. Queixam-se da crueldade do seu mundo, mas aplicam sempre as mesmas soluções. E assim se vive. Como isso me irrita. Quem nasceu pequeno morre pequeno. Não devia ser assim, mas na maioria dos casos é. Bastam-se ao mundinho. Pessoas com inteligência, cultas, de valor e potencial, ficam-se, não vá o mundo saber que existem, rendem-se a um seu micro mundo. Tristeza.

Tu és uma dessas pessoas. Descobri em ti um ser extraordinário. Estava longe disso. Mas como eu não me basto ao meu mundinho investiguei. Melhor, descobri quase uma alma gêmea, se isso existe. Fiquei maravilhado. Afinal não há coincidências. Vieste em boa hora. Foste a peça que faltava na minha engrenagem. Foste o click. E eu mudei, mudei muito. No início ao ver-te, e ouvir-te, era como me ver a mim. Que triste. Desculpa, mas ao ver o teu mundo, fez-me perceber que um não queria ser assim. Mudei porque foste o meu espelho. Desculpa e obrigado. Disse-te que eras como o barro nas mãos do oleiro. Não percebeste. Eu não sou oleiro, mas tua és como barro, e está nas tuas mãos a peça que vais ser.

Disse-te uma vez que eras uma desilusão. És uma desilusão. Porque podes ter tudo e estás a bastar-te ao teu mundinho. Isso irrita-me. Isso é uma evidência. Essa é a minha desilusão.

Falas-te de exclusividade. Sim, tempos houve em que sim. Mas nessa altura não viste, estavas como sempre parada a arranjar as mesmas soluções para os mesmos problemas. Como é mesmo? Já sei, cabeça enterrada na areia, milhares de contemplações ao pôr do sol, e sempre as mesmas soluções. Lá diz o Bettencourt: "Anseio o dia em que acordares por cima de todos os teus números raízes quadradas de somas subtraídas sempre com a mesma solução... Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso harmonioso ao teu gesto mimado e à palma da tua mão...".

Eu já não anseio. És o que és.

Como expectável o vazio está mesmo à porta.

Hoje chega. Amanhã logo se vê.

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