"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Aço

O dia nasceu lindo, ameno e azul. Dia perfeito. O outono sabe ser encantador. Nestes dias, a beleza do próprio verga qualquer crueldade que a vida tenha para nós. Ou a crueldade não escolhe dias para ferir? Não escolhe, mas nos dias azuis acordamos com sentimentos de que tudo está onde devia estar. E isso é bom. Era dia de te ver, de te abraçar e de te olhar. Fui calmo, com a certeza de um dia azul. Tempos houve que a agitação de estar contigo era tanta que chegava uma hora antes. Agora já não, eras um pedaço de mim, e eu zelo por eles. Vi-te a desfilar ao longe, e se tu desfilavas! Aproximavas-te e eu já não continha o sorriso, só ver-te era perfeito. Mais perto. Mas... esses olhos traziam toda a tristeza e violência de quem caminha para a morte apregoada. O dia começa a perder o azul, eu perco o sorriso. Encosto-me à parede para não cair de joelhos. Sem beijo.

《Não dá mais. Acaba aqui e agora. Não posso manter está relação. Não há solução. Tenho a minha vida. Tu arranja uma. Adeus.》
 
Não? Acabar? Arranjar? Fiz mais força nas costas para não cair. Fiquei parado à brutalidade do momento a olhar a calçada. Nem a vi ir para a vida dela.
Dizem que quando nos espetam uma faca, não sentimos dor, só a sensação estranha do aço a entrar em nós. A dor vem logo a seguir, mas depois. Nesse resto de outono, e no inverno logo a seguir, não houve mais dias azuis.

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