"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Vou apanhar ar. Pum...

A frase "vou apanhar ar" marca em mim o início de mais uma guerra entre a razão e o coração. E o apanhar ar aqui é literal. Telemóvel offline e uma caminhada sozinho. São os primeiros tiros da guerra.

Esta guerra, como sabeis de posts anteriores, não foi obra minha. É uma empreitada tua que me disseste que não acerto tudo, que tenho a mania que vejo tudo, e que estava cego num possível "nós".

É justo, já disse. As moedas têm dois lados, portanto vamos lá para a guerra. As guerras começam de duas formas distintas. Dissimuladas pela morte de um qualquer herdeiro, o que conduz a uma disputa de poder e terras, e algum tempo depois, depois da diplomacia, temos a Europa toda envolvida. Ou então, temos uma guerra com estrondo. Um lado bombardeia o outro, sem que esse outro esteja a contar com o barulho, e além das mortes destrói boa parte da sua armada. Tipo Japão a bombardear a frota americana em Pearl Harbour. Esta acaba mal, aliás todas as guerras acabam mal, sem pedir licença largaram 3 bombas nunca antes usadas, e com estrondo acabou a guerra. Tu resolveste começar com estrondo. Espero que não acabe com bombas atómicas na razão ou no coração.

A diplomacia andou a tentar fazer o seu trabalho desde o dia que me escreveste. Fracassou, claro está. Aliás só serviu para que a razão e o coração arregimentassem tropas e armas. A diplomacia dá tempo aos generais de cada lado para colocarem as tropas e definirem estratégias.

É curioso como a nossa mente funciona. Enquanto a diplomacia trabalhava em mim voltei a ouvir músicas do passado. Coisas barulhentas e pesadas, mas carregadas de sentimentos, como Pearl Jam, Nirvana, e bem barulhentas como Off Spring. Bem longe das músicas calmas e reconfortantes dos últimos tempos. Certamente a lembrar outras guerras.

A música de hoje, e já com a surda guerra a decorrer, é "Ouvi dizer" dos Ornatos Violeta. Só para conferir algum dramatismo.

Uma nota importante. Só tu poderás interromper o silêncio desta guerra. Só tu, que largaste o rastilho, poderás ser aliada das partes, o que fizeres, escreveres ou disseres podem ser armas novas à razão e ao coração.

As guerras não têm tempo de duração prevista. Esta também não. Baixas previstas há. Se ganhar o coração fará incontáveis baixas nas certezas da minha razão. Se ganhar a razão, só há uma vítima mortal, o meu coração.

Vou acreditar ti. Esqueço as tuas infantilidades. Tenho mais a perder que tu. Perdoa este sentido prático. Estou diferente. O meu coração está disponível, mas já não serve a qualquer uma.

Hoje é assim. Amanhã logo se vê.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

É merecido!

Já não sei se é a vida que nos prega partidas, ou se não somos nós que nos pomos em linha recta para levar com a partida em cima.

Neste caso, admito, é merecido.

Tenho a mania do auto controlo, tenho a mania que antecipo tudo. Como sou atento ao meu redor, vejo e traço cenários que transformo em verdades absolutas. Não falho muito, mas falho.
E lá está a partida, falhei, e ouvi que:

"Antes de eu tomar uma decisão tu antecipas isso e achas que acertas sempre. Lamento mas não acertas sempre. Sobre nós..."

Tinhas dito que me ias escrever. Fiquei feliz, adoro ler, e tu habitualmente não escreves. Antecipei no meu pensamento o que ias escrever. O teu mundinho, o teu caos, as tuas dúvidas, o teu por do Sol, enfim aquilo que apelidei da tua vidinha curta. Antecipei no meu pensamento a minha resposta de conforto. Antecipei um post em que finalmente o vazio tinha chegado, aliás já cá estava, e tudo seguiu a sua rota normal. O mundo gira sobre si próprio, a lua gira sobre a terra e a terra gira sobre o Sol. Tudo certo portanto e cá estou eu carregado das minhas certezas.

Mas tu surpreendeste-me, foste inteligente, passaste-me a bola com força. Eu no meu umbigo de certezas, e tu escreves sobre mim e sobre nós! Ali fiquei eu a olhar, sem palavras, caiu-me a lua em cima. Como eu estava a merecer. Lá me explicaste que eu também sou cego, porque fico cego nas minhas verdades. É merecido.

Falaste-me de jantares preparados em conjunto, ao som das nossas músicas com um bom vinho tinto, de sair e viajar, de fim de semana a ler e a ver o Douro.
Esse mundo fantástico passou no meu coração há meses atrás, quando nas minhas certezas o vi. Depois passou. Percebemos que a terra não gira à mesma velocidade para todos.

Depois levantaste as tuas muralhas, e bem, o "nós" tem muitos "mas". Há demasiado conhecimento mútuo que gera desconforto e incertezas.

"Há sempre uma linha tênue que separa a admiração da desilusão" dizes tu, e dizes mais "não quero que mudes nada por mim". Ora toma só um bocadinho de pressão, só para saberes que tens a bola do teu lado. Ao mesmo tempo é bom, é a vida a girar.

Posso sempre dizer/fazer que: não sei jogar à bola; paro no pé com classe e chuto para longe; paro a bola no peito.

Se bem me conheço vem aí uma daquelas "guerrinhas" razão vs coração. Um clássico.

Hoje é assim, amanhã logo se vê.

Nota: hoje acordei com tua neblina, tenho quase a certeza que ao meio dia será sol.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Gesto mimado e à palma da tua mão

Por duas vezes, por culpa própria, estive a caminho da terra da verdade. Quer dizer, três vezes, que uma doença na infância também conta, só que não foi por culpa própria. Não faz muito tempo que me dei conta desta realidade. Isto criou em mim um sentimento estranho. Deixei de compreender a maioria das pessoas. Pessoas que têm tudo, mas estão fechados num mundo pequeno em ideias, em quilómetros quadrados, em vontade de mudar. Detesto as mesmas receitas para os mesmos problezinhos. É tudo uma espiral sem sentido, com epicentro no umbigo. Queixam-se da crueldade do seu mundo, mas aplicam sempre as mesmas soluções. E assim se vive. Como isso me irrita. Quem nasceu pequeno morre pequeno. Não devia ser assim, mas na maioria dos casos é. Bastam-se ao mundinho. Pessoas com inteligência, cultas, de valor e potencial, ficam-se, não vá o mundo saber que existem, rendem-se a um seu micro mundo. Tristeza.

Tu és uma dessas pessoas. Descobri em ti um ser extraordinário. Estava longe disso. Mas como eu não me basto ao meu mundinho investiguei. Melhor, descobri quase uma alma gêmea, se isso existe. Fiquei maravilhado. Afinal não há coincidências. Vieste em boa hora. Foste a peça que faltava na minha engrenagem. Foste o click. E eu mudei, mudei muito. No início ao ver-te, e ouvir-te, era como me ver a mim. Que triste. Desculpa, mas ao ver o teu mundo, fez-me perceber que um não queria ser assim. Mudei porque foste o meu espelho. Desculpa e obrigado. Disse-te que eras como o barro nas mãos do oleiro. Não percebeste. Eu não sou oleiro, mas tua és como barro, e está nas tuas mãos a peça que vais ser.

Disse-te uma vez que eras uma desilusão. És uma desilusão. Porque podes ter tudo e estás a bastar-te ao teu mundinho. Isso irrita-me. Isso é uma evidência. Essa é a minha desilusão.

Falas-te de exclusividade. Sim, tempos houve em que sim. Mas nessa altura não viste, estavas como sempre parada a arranjar as mesmas soluções para os mesmos problemas. Como é mesmo? Já sei, cabeça enterrada na areia, milhares de contemplações ao pôr do sol, e sempre as mesmas soluções. Lá diz o Bettencourt: "Anseio o dia em que acordares por cima de todos os teus números raízes quadradas de somas subtraídas sempre com a mesma solução... Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso harmonioso ao teu gesto mimado e à palma da tua mão...".

Eu já não anseio. És o que és.

Como expectável o vazio está mesmo à porta.

Hoje chega. Amanhã logo se vê.

domingo, 28 de agosto de 2016

Amanhã preciso de me lembrar...

... que no meio de todas as minhas queixas e e tristezas, há calvários mais dolorosos.

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 

São teus, sim são teus

Passas o lápis negro e a máscara. 
Realçam. Crescem.
Belos e grandes. Castanhos.
São faladores. Eu tenho sorte.
Consigo ouvi-los. Não sei se há mais.
Eu consigo.
Desculpa.
São lindos quando coras.
São tudo quando estás triste.
Falam-me.
No início contaram o que eu já sabia.
Achas que é a maior dor do mundo.
Não é. O mundo é mais, muito mais.
Já te quis mostrar. E tu sabias.
Esses olhos ainda não viram nada.
Adoro o brilho quando falas de música.
Adoro o brilho quando falo de lugares.
Como crescem quando ris.
Tens medo de chorar. Chora.
A água só os faz mais belos.
Eu sei. Vergonha. Não penses.
Hoje ainda os oiço.
Faço um esforço para não os ouvir.
Eu prometi.
E tu só queres que eu os ouça.

Amanhã. Talvez.

sábado, 27 de agosto de 2016

Para ti, sim para ti.

Eras tu a neblina, eras tu os raios de sol. Queres acreditar? Eu deixo. E porque não? Eu deixo. Será sempre assim. Escondidos e bem ao longe. Não vá a vida pregar partidas. Não vamos nós vencer medos, e preconceitos. É melhor não. Ao longe.

Gostas de te perder na minha conversa banal, eu sei. Até eu gosto da tua conversa banal. Passa rápido o tempo quando assim é. Com tanta conversa banal, conhecemos bem os nossos mundos. Por sinal tão iguais. Sabemos de mais. Eu sei. Era melhor não sabermos? Provavelmente. Poucos me fazem rir com gosto, tu fazes. Poucos me entretêm na sua banalidade, tu entretens. Poucos me fazem viajar, tu fazes. Poucos me ouvem, tu ouves. E também eu te faço rir, viajar, e sonhar. Tantos gosto iguais! Tão boa companhia. Chegaste à hora certa. Até nos defeitos... tão parecidos... hoje não é dia de defeitos.

O melhor de tudo isto é que ninguém sabe, nem sonha. Que nós somos assim, e melhor, que somos cúmplices... tão cúmplices. É como te digo, têm os olhos abertos, mas nada vêem. Sabemos bem os nossos pequenos tiques, os nossos pequenos sinais. Perfeito. Demasiado perfeito. Guardas tudo, estás atenta, falas pouco quando não gostas, dás a volta ao mundo para me perguntares qualquer coisa. Para ficares com a tua certeza. Não precisas. Já sabes a resposta. Eu sei. Sou igual.

Mas há muito por descobrir. Isso fica perdido em sonhos, que de manhã não lembramos, ou fingimos não lembrar. O melhor é o que fica por contar. Tanta timidez. Mas sabe bem. Eu sei. Sou igual.

Gosto da tua música, da tua conversa, do teu riso, do teu pensar, da tua aparente fragilidade, do teu pequeno caos, das tuas dúvidas, dos teus gostos, dos teus jogos, do teu ciúme infantil.

Amanhã... logo se vê.

O ginásio já não é para o gordo.

O ginásio já não é para os gordos. Aquilo agora é uma cáfila* de vaidosos* a fazer coisas em círculo ou oval, mas dizem circuito. Gordos nem ver ali, destoam.

Agora o ginásio é para magros, de barba e cabelo curto. Profissões variadas, ou não, como militares e ex-militares, arregimentados da psp e gnr, securitas e similares, surfistas, malta ligada ao comércio em geral (leia-se vendedores de fatinho que compraram fatos 46 na primark e agora têm de lá caber), e uns 1o% de gente quase normal, e desempregados, pois sempre é melhor estar desempregado com um six pack e bíceps visíveis.

Nelas, temos gajas mais ou menos compactas (que fazem todos dias para serem toleradas e não explusas), meninas abismadas com o termo índice massa gorda vs índice massa muscular, gajas que só lá vão porque os maridos não as deixam ter balança em casa (e bem), gajas que os maridos mandam para ali suar para ficarem bonitas enquanto eles estão com as amantes, 10% de gajas mais ou menos normais, gajas que acham que ter um corpo como a Maria de Lurdes Mutola é hipster (moderno vá). Para mais informações sobre a Mutola, ask Google, escrever Mutola, clicar em imagens, e depois ver esse fantástico corpo tão feminino.

Tantos elas, como eles, só falam de tempos, de burppes, squats, pushups, jackknives, pistols e situps. Depois juntam números para referir a quantidade. O ginásio chama-se Box e a modalidade Crossfit! Não há certezas. A maioria, senão todos, não perdem uma prova de corrida ou trial (correr onde as cabras andam), e praia. Para mostrarem a sua evolução ao mundo, na certeza de que o mundo se preocupa. Não há certezas. É proibido falar em português, portanto se algum atleta disser flexões em vez de pushups, agachamentos em vez de squats ou abdominais em vez de situps, à terceira infracção é expulso, se for gordo é à primeira. Como vêem um léxico elaborado. Não se atrevam a mencionar coisas do passado, como fitness, ou cardio, ou musculação... não são gordos, mas são velhos. Já ninguém corre, faz running, já ninguém anda de bicicleta, faz spinning,  ok?

O instrutor (desculpem, agora é coach), mas pronto, o instrutor limita-se a gritar palavras de ordem anti colesterol , bem ao estilo, de Stanley Kubrick com o seu sargento em Full Metal Jacket (um bocadinho de Cultura só para... enfim). Aliás a prova oral, e sem a qual ninguém é coach, é uma imitação do Gunnery Sargent Hartman. (Mais uma vez Google pesquisar Sergent Full Metal Jacket é logo o primeiro vídeo... não dá para falhar).

Há espelhos em todo o lado, televisões  (quer dizer LCD's, enganem-se e são corridos), e frases motivacionais para não ficarem gordos. Também há cenas à venda para não ficarem gordos. Portanto, nada de gordos, dão má fama à casa, quer dizer à box.

Como o léxico desta corja não é vasto, nem é português, juntam-se em grupo mesmo fora da Box, assim o esforço é menor para aparentarem conversas inteligentes.

Mas afinal porque é que os gordos não podem? Caríssimos, esta cáfila só lá anda para no final tirarem fotos (selfies ou groupies) aos abdominais, bíceps e ombros para porem no Facebook e Instagram. Convenhamos, mostrar o six pack com dois amigos, uma gaja loura e um gordo tipo boneco da Michelin não é estético.

Como muito provavelmente os leitores deste post não serão os habituais, as minhas desculpas aos habituais pela pobreza do mesmo.

*1 cáfila | cá.fi.la | ˈkafilɐ
nome feminino
1.grupo de camelos
2.conjunto de mercadorias transportadas emcamelos, no interior da Ásia e da África
3.pejorativo corja, súcia
cáfila in Dicionário da Língua Portuguesa sem Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016.
*2 vaidoso /ô | vai.do.so | vajˈdozu
adjectivo
1.que tem vaidade
2.presunçoso
3.orgulhoso
nome masculino
pessoa que tem vaidade ou orgulho
vaidoso in Dicionário da Língua Portuguesa sem Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016.

NOTA:
Façam exercício, por favor. Eu faço, com folga à quarta e ao domingo. Faz bem ao corpo e à mente, é um brutal clichê, mas faz. Gosto muito. Já corro 8km sem grande dificuldade. Nos 3km em breve poderei candidatar-me a qualquer força especial, estou quase a baixar dos 12 minutos. Entre as corridas dia sim dia não, faço uma tonelada de exercícios (há boas App's com workouts e vídeos explicativos, i. e. como fazer as flexões e os agachamentos e afins), isto resultará num corpo mais saudável e num six pack fabuloso (está quase). Tudo isto feito sozinho na parte da corrida, os exercícios feitos na rua (qualquer parque infantil) sozinho ou acompanhado de mais 2 a 3 malucos. E esta história do exercício acaba aqui. Faz a sua boa função e termina aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Faço isto.

"Silêncios, compromissos em suspenso, não respostas, bombons de promessas que se desfazem na boca, as meias palavras arrebanhadas nas esquinas da hipocrisia.
Também é assim, em legítima defesa, que a distância de segurança mostra as garras e adensa o vazio."


Obrigado Isabel por pores de forma tão óbvia o meu comportamento.

Se calhar é medo, se calhar é legítima defesa, mas eu fico tantas vezes pelas meias palavras. Se calhar é isso mesmo, é hipocrisia, ou o muro de pedra que me defende.

Se calhar é por sentir que do outro lado fazem igual.

E sim, vai acabar como dizes, no vazio... pena.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ternura

Ternura
 
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada... 
 
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio... 
 
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo... 
 
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
 
 
David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal" 
 
Porque eu também sou muito isto.
Nem só de mau feitio se alimenta uma conta corrente.
E eu não sei escrever assim.

Cachorrinho

Mulheres carentes e com falta de confiança, e porque não dize-lo, com falta de visão são uma seca, e são más.

Não gosto.

Por norma, todas têm um "cachorrinho", e não é de quatro patas, é de duas e não sabem que fazem figura de quatro. Existem na vida delas apenas e só para elas terem uma sensação de conforto aparente. Quando mais nada houver de interesse, há o "cachorrinho", que não lhes falta. Claro que isto não se faz a ninguém, mas a uma mulher carente pouco importa. Oh! Quando tudo falhar, ele está lá, mesmo no meio da banalidade, ele não falta com um carinho bom, nem que seja vulgar e mais do mesmo.

É curioso, penso que também há homens que fazem isto, mas em menor escala, uma mulher sabe bem quando tem duas patas e faz figura de quatro.

Mas... isto revela uma falta de amor próprio, uma falta de confiança nelas próprias, uma falta de tudo. É baixo, é ordinário, e ainda se enganam a si próprias. No fundo têm consciência disto tudo, mas o medo de não haver pelo menos um "cachorrinho" a fazer de rede de segurança é maior que todas estas maldades.

Aviso à navegação: quando um homem descobre que era apenas um animal de companhia adquirido apenas e só para agradar quando tudo o resto fugiu, dá merda.

Aviso à navegação: quando um homem descobre que uma mulher faz isso a outro, dá fuga pela certa. Afinal ninguém quer fazer a figura!

Pior, há quem faça disto vida, assim sempre andam entretidas.

É pena.

Aço

O dia nasceu lindo, ameno e azul. Dia perfeito. O outono sabe ser encantador. Nestes dias, a beleza do próprio verga qualquer crueldade que a vida tenha para nós. Ou a crueldade não escolhe dias para ferir? Não escolhe, mas nos dias azuis acordamos com sentimentos de que tudo está onde devia estar. E isso é bom. Era dia de te ver, de te abraçar e de te olhar. Fui calmo, com a certeza de um dia azul. Tempos houve que a agitação de estar contigo era tanta que chegava uma hora antes. Agora já não, eras um pedaço de mim, e eu zelo por eles. Vi-te a desfilar ao longe, e se tu desfilavas! Aproximavas-te e eu já não continha o sorriso, só ver-te era perfeito. Mais perto. Mas... esses olhos traziam toda a tristeza e violência de quem caminha para a morte apregoada. O dia começa a perder o azul, eu perco o sorriso. Encosto-me à parede para não cair de joelhos. Sem beijo.

《Não dá mais. Acaba aqui e agora. Não posso manter está relação. Não há solução. Tenho a minha vida. Tu arranja uma. Adeus.》
 
Não? Acabar? Arranjar? Fiz mais força nas costas para não cair. Fiquei parado à brutalidade do momento a olhar a calçada. Nem a vi ir para a vida dela.
Dizem que quando nos espetam uma faca, não sentimos dor, só a sensação estranha do aço a entrar em nós. A dor vem logo a seguir, mas depois. Nesse resto de outono, e no inverno logo a seguir, não houve mais dias azuis.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Amor é likes

... e não é no facebook.

Não é daquele amor em que há apenas uma atracção física, a necessidade de matar um desejo carnal... não é isso, isso existe e acontece. Mas se for uma relação baseada nisso esgota-se rápido... 2 a 3 vezes na cama e está visto.

O tema é amar alguém com quem partilhamos os mesmos gostos, ideias, desejos e vontades, ou não. É possível amar nos dois casos... ou talvez não.

Quando se ama alguém com gostos diferentes é bom. No início haverá cedências para agradar ao outro. Mudaremos aspectos nossos para estarmos unidos ao outro é certo. Iremos mostrar todo o interesse em temas novos só para agradar ao outro. Com o tempo, e tendo em conta o amor, ambos se adaptam um ao outro.

Passam meses, passam anos, e começa a renascer uma vontade de voltarmos aquilo que nós gostamos, aquilo que efectivamente nos preenche, aquele desejo de fazer o que não fizemos porque estivemos "ocupados" a agradar ao outro... Se amarmos muito o outro, poderá durar uma vida, pondo de lado a nossa própria identidade. Não é bem um viver pleno, será sempre um vamos andando, faltará sempre qualquer coisa... será uma "vidinha", andámos por cá sempre a coxear.

Depois há uma outra opção, encontramos alguém que nos preenche em tudo, e nós ao outro claro. Será impossível? Deve haver casos destes, poucos certamente. Sim, provavelmente será para sempre.

Claro que isto deve ser só o meu egoísmo a falar... se quiserem podem culpar o meu mau feitio.

Afinal nada disto é assim tão básico, ou é?

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Carta

Algures, 30 de Fevereiro de 2011

De mim para ti,

Entraste na minha vida como o nevoeiro que chega. De forma mansa, densa, lenta, fria, húmida, impercetível, e num silêncio forte.

Devia ter-te visto ao longe. Não vi. Se calhar fingi que não vi. Se calhar só queria deixar-me envolver no nevoeiro.

Depois descobri. Afinal não eras nevoeiro, eras a neblina da manhã do Oeste. E da mesma forma que chegaste rapidamente começaste a mostrar raios de sol, de um sol já alto.

Esses raios de sol, já quentes, mudaram tudo, chegaram devagar, mas ao meio-dia eu já era outra pessoa.

Agora só peço que o por do Sol não chegue. Não com medo da noite... mas com medo de que de manhã sejas só uma neblina, que não deixe ver o Sol no dia seguinte.

Para ti.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O fim da saga dos olhos

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler."

José Saramago

Olhos verdes

Mataram-me, foram eles. Fiquei escravo deles. Deixei de viver. Arrancaram-me tudo, foi até aos ossos da alma. Como fui acreditar neles. Falsos.

Como não acreditar? São lindos, hipnotizam, agarram, amarram, destroem, tiram o ar, e no fim, matam.

Por detrás de tanta beleza, de um mundo verde sem fim, escondiam punhais, escondiam maldade pura, eram um véu de disfarce, escondendo um ser vil.

Ao princípio eram dóceis, amigos, convidativos, carregados de sentimento.

Fui envolvido. É isso... acontecia a qualquer um.

O que é isso interessa. Estou morto e não sei até quando.

Olhos azuis

Olhos azuis, os teus, são onde tudo começa e acaba para mim. Podiam ser o mundo, só esse azul indefinido. É o que me basta para viver. Basta-me isso. São o meu alimento, a minha roupa, o meu conforto, são a minha certeza de que nada é por acaso.
Não olho esses olhos para ter ver por dentro. Não dá, não consigo, sobre ti nada me dizem. São paredes azuis. Olho esses olhos num profundo acto de egoísmo. São para mim, basta-me isso.
Não quero saber o que escondem. Verdades, mentiras, alegrias e tristezas, uma pessoa má ou boa, o sofrimento de um passado perturbado, um futuro alegremente ridículo. Não quero saber.
São meus, foram criados para meu deleite, são a prenda de Deus para mim.
Se fugires... morro... de todas as formas.

Olhos castanhos

Olhos de quem quer ver o mundo. Abertos que nada vêem. Cegos num universo só teu, pequeno e fechado. Estão lá todos os teus sonhos. Estão lá todos os teus desejos. E ninguém vê?!? Não deixas... 

Porque tens medo. Medo, sempre medo, e se alguém vê? E se alguém vislumbra quem eu sou...Não tenhas medo. Olham-te. Mas esquecem os teus olhos. Logo eles que tanto dizem. 

Ninguém os teus olhos vê. Pior... ninguém chega à tua alma pelos teus olhos. Nem quem teus olhos lê? Não deixas. Alma fechada à dor de quase mil anos.

Se ao menos o mundo soubesse o que esses olhos castanhos contam...

domingo, 21 de agosto de 2016

Verão azul finalmente

Não, não é sobre a série de televisão da minha infância.

É sobre uma coisa bem mais simples. Sempre quis ter uns óculos de sol azul espelhados. Lentes azuis espalhadas armação normal preta.

A sociedade sempre me vedou isso... quem usava óculos de sol espelhados azuis, verdes, vermelhos, laranja ou amarelos, eram os "bimbos", malta da aldeia, matarruanos, etc.
Em matéria de óculos de sol, aceitava-se óculos escuros com lentes escuras da Carrera, Ray Ban e pouco mais. Era muito aceitável socialmente (seja lá isso o que for) Ray Ban de lentes verdes e armação em dourado! Felizmente safei-me socialmente pois o meu querido pai brindou-me com uma Ray Ban originais de 1974... Lentes verde escuras e armação dourada. E assim em matéria de óculos de sol eu era socialmente aceite!

No início deste verão o meu vizinho do terceiro andar, insuspeito de ser "bimbo", apareceu ao pé mim com óculos azuis espelhados, armação incolor. E eu pensei: "Sério! Ora aqui está!". Ora aqui está, uma análise mais atenta ao mundinho à volta de mim... E foi ver milhares de jovens, e menos jovens, de óculos de sol espelhados, sobretudo azuis. Comprei uns claro. O verão ficou azul e socialmente aceite na mesma.

NOTA: o socialmente aceite é ridículo... a pressão social é ridícula! O que há uns anos era matarruano é hoje um obrigatório social - irra mundo estúpido.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Abraço

No meu mau feitio já cabe como desculpa grande parte dos problemas do mundo, e dos "mundinhos" de quem me rodeia.
Sim, sou um anti social primário, descrente das pessoas e da raça humana.
Se calhar não, sou só desconfiado.
Para sobreviver no dia-a-dia, passei a representar, com inúmeras personagens adequadas a cada momento e hora do dia.
Criei uma muralha defensiva de fazer inveja à Grande Muralha.
Mas até eu preciso de um abraço de vez enquanto, para que tudo volte a fazer sentido.
Obrigado a quem me abraça quando preciso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Recomeçar

"Recomeça...
se puderes
sem angústia
e sem pressa
e os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro
dá-os em liberdade
enquanto não alcances
não descanses
de nenhum fruto queiras só metade."
Recomeça, Miguel Torga
 
Ainda agora recomecei... E de um fruto tenho só metade.
Não sou dono da outra metade. Não me deixam, não querem, não podem. Não posso?
Não descanso, mas não alcanço. Resta recomeçar... tudo de novo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Linhas

Podemos passar toda a nossa vida a desenhar linhas no nosso pensamento. Ou então, podemos passar a vida a saltar as nossas linhas e as dos outros.

Há gentes assim. Gentes que se perdem no próprio pensamento, gentes que gastam lápis incontáveis a desenhar linhas de si. Gentes que não vivem, com medo do mal e do bem, pois então. São gentes de gritos em silêncio.

Há gentes assim. Gentes que não usam lápis nem borracha. Gentes que arriscam o saltar das linhas pensadas. Gentes sem medo para o bem e para o mal. Gentes de arte, de escrita e de música. São gentes que gritam bem alto.

E que gente sou eu? Tem dias gentes... tem dias.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Medo


 
Chovia muito. A rua estava iluminada pelos relâmpagos ferozes, a luz dos candeeiros era pobre, quase invisível à força de tanta chuva. Debaixo de um alpendre, de um lado da rua, Ela olhava para Ele. Do outro lado da rua, debaixo da ombreira de uma porta, Ele olhava para Ela. Os seus olhares cruzavam-se para além da chuva. Trespassavam a água. Era como se estivessem colados, quase a tocarem-se. Passaram 10 minutos. Começou a cair granizo. Nenhum tinha coragem de ir ter com o outro. O medo da chuva forte , dos trovões que gritavam, dos relâmpagos que faziam parecer dia e o granizo pesado, não os deixavam caminhar um de encontro ao outro. Ele acendeu um cigarro, Ela olhou para o telemóvel, queriam fugir ao olhar que ia para além da tempestade. Logo retomaram o olhar. Seria hoje que o medo da tempestade ia fugir dos seus corações? Seria hoje que iam caminhar um para o outro? Aquela tempestade perfeita era a dor que ambos tinham dentro dos corações. Guardada bem no fundo dos seus corações e almas, aquela dor era a tempestade que aparecia quando nas suas vidas apareciam dias de sol quente. E Ela e Ele tinham tanto medo da dor, viviam debaixo da ombreira e do alpendre para se esconderem das suas tempestades, das suas dores. E agora debaixo da ombreira Ele não queria sair e enfrentar de frente a sua dor. Foram anos e anos de violência a si próprio, numa paixão única que quase o matou. Não morreu, mas jamais a dor e a tempestade que quase o matou o deixariam sair da ombreira da porta, era o seu castelo de defesa à dor da vida. E agora debaixo do alpendre Ela não queria sair e enfrentar de frente a sua dor. Foram anos e anos de rejeição, anos e anos de entrega total a amores perfeitos, e todos Eles a trocaram como se o coração dela não fosse real. Deste desprezo e indiferença nasceu o alpendre que a protegia das tempestades. Daqui nasceu pedra que nem deixava ouvir o seu coração bater. Quis quem manda que hoje podiam atravessar juntos as suas tempestades. A Vida tinha os colocado na mesma rua, frente a frente. Há já vários meses que se olhavam, que se desejavam. Mas as ombreiras e alpendres, os medos, as dores e as tempestades não deixavam que atravesassem a rua. Mas seria hoje? Logo hoje que o céu ameaçava cair sobre eles. Quis quem manda que sim, afinal na vida tudo acontece por um motivo. Se quem manda os tinha posto assim, frente a frente na mesma rua, por alguma razão seria. Mas quem dará o primeiro passo em direcção ao outro? Será Ele ou Ela? Na claridade cega de mais um relâmpago os olhos de desejo dele e dela disseram avança, encontro-te a meio caminho. Em simultâneo deram o primeiro passo para a chuva e granizo, sem medo, confiantes. Em segundos eternos o medo e dor eram passado. Agora só queriam caminhar. A meio encontraram-se, deram as mãos. Ele contemplou mais uma vez aquele rosto de anjo que há meses observava. Rosto molhado pela chuva e rejeições da vida. Ela aproximou os seus lábios dele. Antes de o beijar, disse-lhe: Quero-te.