"Se eu te pudesse dizer
o que nunca te direi,
tu terias que entender
aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 28 de abril de 2017

mar

Nau dos Corvos, Cabo Carvoeiro, Peniche
CC, Abr.2017


Atraído pelo mar fui. Queria ver os corvos marinhos da estranhamente bela Nau dos Corvos. Ao admirar o seu voo a pique, ou simples planar, esperei que também eu ganhasse asas novamente. O mar - sempre o mar - seria a nota tónica perfeita, seria ele a costurar em mim as asas negras e brilhantes, que me levariam longe novamente, imperial, voaria para os meus mundos. Acendi um cigarro, mergulhei no hipnotizante azul escuro metálico, e saí enxuto, chapinhei no verde tropical, claro e belo, dos baixios das rochas, mas nada aconteceu. Não senti o frio da agulha em mim a coser as asas que quero. De regresso ao alto deixei voar pensamentos e preces - dá-me asas para viver outra vez - implorei. Do nada, e contrariando a sedação reinante, ecoou um forte estrondo, mesmo por baixo de mim, na cavidade da rocha onde me sentava. Se a terra não tremeu, eu retremi. Ainda recuperava de tamanha oscilação interior, e ouvi o seguinte brado: porque me falas, me visitas, e sempre procuraste em mim refúgio, dar-te-ei o poder de me ouvires. Agora chega de te mentires a ti próprio, não precisas de asas, sabes bem onde estão. Vai, vai fazer, agir sem pensares, sem remoeres e nada fazeres. Vai. Entrei apressadamente no carro. Uma gaivota parou a planar à minha frente. Acelerei. A gaivota seguiu-me, ora de um lado, ora de outro. Parei no porto, e ela pousou. Aproximei-me e ela ajeitou as penas. Depois olhou-me, e disse: não tenhas medo. Foi o mar que me mandou. Serei os seus olhos quando estiveres longe do mar. Uns dias ver-me-ás, outros não. Mas doravante, serei tua guardiã. E se precisares, tenho ordens para te dar as minhas asas. Agora vai. Aperaltou-se, e do alto da vaidade, disse: tira a foto, e guarda-me.

gaivota, Porto de Peniche
CC, Abr.2017

O acordar foi lento, saboroso, palatável, relembrando o sonho, como um todo. Mal posso esperar por ir ver o mar, outra vez.

conta-corrente
Sonhos



terça-feira, 25 de abril de 2017

25.04.2017


Enquanto as asas não chegam, aproveitei para explicar aos miúdos que nem sempre o Homem é livre de dizer o quer, que não faz muito tempo todos eram obrigados a pensar e a falar igual, a partir de uma cartilha... quem não o fizesse, era preso. E para que não se pense que se trata de um romance levei-os a uma das prisões dos antifascistas: Peniche

Para que não se esqueça.


Um homem só no Segredo...

Um homem só no segredo,
Sabe um segredo profundo:
Nunca está só nem tem medo
Quem ama os homens e o mundo

Carlos Aboim Inglez
Dez. 1959


Cela disciplinar
(sátira amarga)

A aranha
Deixou a teia em meio
E foi-se embora:
- O lugar era demasiado
Desconfortável


Celas







Exterior







Álvaro Cunhal, e fugas
Cunhal foi preso em Peniche por três vezes: 1937, 1955 e 1958. Evadiu-se em 1960.







O parlatório, onde os guardas escutavam as conversas e obrigavam as visitas as falar alto. O Estado Novo e culto da imagem, e a PIDE com documentos originais, técnicas e denúncias...








Poesia de quem lá esteve






domingo, 23 de abril de 2017

asas


asas*


Queria escrever sobre asas, ou sobre a falta delas. Quero explicar a falta que me fazem, onde me levam, mas não consigo. Não as tenho, não as sinto. Fugiram de mim, voam noutro, ou estão amarradas debaixo de um fato e gravata, tal e qual um baraço. Não é só uma folha em branco e a incapacidade de nela por palavras, é antes de tudo isso, é a ausência de sonhar. É grave. É triste. Faz de mim um comum animal, afinal sem o poder de sonhar e voar, sou um animal que cumpre as suas rotinas de sobrevivência. É pouco. É fatal. Alimento-me, deixo e trato da descendência, cumpro rotinas sociais e de trabalho. Como qualquer outro animal. Tenho saudades que me digam do nada - estás a rir do quê? - enquanto eu voava por vales e montanhas, praias e mares. As asas levavam-me para cabelos em caracóis negros, lisos claros, olhos verdes, ou azuis, paixões e momentos, amor também. Fazem-me falta as histórias dos meus mundos onde só chegava com as minhas asas.

falta, muita falta...

em breve voarei novamente 

conta corrente

*esta imagem poderá ter direitos de autor